Economia

Janela de importação de etanol volta a abrir: EUA devem abastecer Nordeste em plena safra recorde

Navio tanque atracado no Porto de Suape descarregando etanol importado dos EUA
Importação de etanol dos EUA chega ao Porto de Suape (PE) durante safra recorde brasileira

O Brasil deve reabrir as portas para o etanol norte-americano entre dezembro e janeiro, num movimento que contraria a lógica de uma safra 2026/27 projetada para bater recordes de produção. A janela, que beneficia principalmente exportadores dos Estados Unidos, surge pressionada por um descompasso entre oferta e demanda no mercado interno.

Corretoras e consultorias independentes convergem para o mesmo cenário: o primeiro trimestre de 2027 deve repetir o padrão observado no início de 2026, quando navios atracaram em Suape (PE) carregados com etanol anidro. A diferença é que, desta vez, a safra brasileira promete ser histórica.

Por que importar se a produção é recorde?

A resposta está no calendário climático e na tributação. O El Niño trouxe chuvas excessivas ao Centro-Sul, interrompendo a moagem de cana em sequência. Essas paradas penalizam mais o etanol anidro — aquele misturado à gasolina — porque sua fabricação exige etapas adicionais de desidratação.

Enquanto isso, o etanol hidratado (usado direto nos tanques flex) ganhou fôlego com a desoneração de PIS/Cofins vigente até 9 de novembro. O resultado: estoques de anidro pressionados justamente na entressafra, quando a cana para de entrar nas usinas.

Os números por trás da janela

As projeções apontam para um volume entre 150 e 200 milhões de litros importados entre outubro de 2026 e março de 2027. A concentração deve ficar nos três meses centrais:

  • Dezembro 2026 a fevereiro 2027: pico dos desembarques
  • Período equivalente em 2025/26: 228,3 milhões de litros entraram no país
  • Porta de entrada principal: Suape (PE), atendendo ao Nordeste

A conta fecha quando o custo do etanol dos EUA — frete, câmbio, tarifa de 18% e taxas portuárias — fica abaixo do preço do anidro nacional no Nordeste. Foi exatamente essa equação que virou a balança comercial negativa de janeiro a março deste ano.

Exportações em queda, mercado interno em transformação

Enquanto as importações crescem no Nordeste, as exportações brasileiras recuaram 17% no acumulado do ano, totalizando 1,03 bilhão de litros. Dois movimentos explicam a queda:

  • Demanda por etanol industrial caiu 34,1%
  • Embarques de etanol combustível subiram 31,7%

A balança comercial do setor voltou ao azul a partir de abril, mas o quadro revela uma reconfiguração: o Brasil exporta menos e importa mais no mesmo ano-safra, direcionando fluxos diferentes para regiões distintas.

O que sustenta a previsão para 2027

Três pilares mantêm a janela aberta na virada do ano:

  • Frete marítimo estável nos corredores EUA-Brasil
  • Preços do etanol nacional em trajetória de alta na entressafra
  • Etanol norte-americano competitivo, com milho abundante e custos de produção controlados

Se alguma variável mudar — dólar mais fraco, safra americana menor ou logística congestionada —, a janela pode fechar antes do previsto.

O que observar nos próximos meses

O gatilho decisivo será o comportamento dos preços no spot paulista a partir de novembro. Se o anidro subir acima da paridade de importação no Nordeste, os navios já estarão a caminho. Para o empresário do setor, a lição é clara: a safra recorde no papel não garante abastecimento equilibrado em todas as regiões. A logística e a tributação seguem ditando onde o etanol — nacional ou importado — efetivamente chega.