Economia

Carrefour vende 22 imóveis e vira inquilino: o segredo por trás da jogada bilionária…

Fachada de supermercado Carrefour com logotipo visível, representando venda de imóveis em modelo sale and leaseback
Carrefour vende 22 imóveis próprios ao fundo Pátria Renda Urbano e continua operando como inquilino.

O Carrefour Brasil acaba de confirmar a venda de 22 imóveis próprios para o fundo Pátria Renda Urbano, mas a rede não vai sair dos endereços: passará a pagar aluguel para continuar operando. A manobra, avaliada pelo Cade, injeta caixa imediato na varejista sem fechar uma única porta. Mas qual o custo real dessa liquidez para o futuro da operação?

A transação segue o modelo sale and leaseback — venda com aluguel de volta. Na prática, o Carrefour transforma ativos imobilizados em capital de giro, enquanto o Pátria assume a posse dos prédios e a receita locatícia. O valor do negócio não foi revelado, mas a aprovação regulatória é o único obstáculo restante para o fechamento.

Por que grandes varejistas estão virando inquilinos?

A estratégia não é isolada. Ao abrir mão da propriedade, a empresa reduz a necessidade de capital próprio atrelado a tijolos e telhados. O recurso liberado pode financiar expansão de atacarejo, reforma de lojas ou até amortização de dívidas caras. Para o investidor imobiliário, o atrativo é a renda previsível de um inquilino âncora com contrato de longo prazo.

No entanto, a conta fecha apenas se o aluguel couber no fluxo de caixa operacional. Se a inflação de custos de ocupação superar o crescimento das vendas, a margem aperta. É o clássico trade-off entre liquidez hoje e custo fixo amanhã.

O outro lado da moeda: venda de operação para o Grupo Pereira

Dias antes, o Carrefour fechou outra negociação, esta sim envolvendo a saída definitiva de 21 unidades da bandeira Carrefour Bairro. O comprador foi o Grupo Pereira, rede catarinense que pagará cerca de R$ 360 milhões pelo pacote. A diferença estrutural é total:

  • Com Pátria: Vende imóvel, mantém operação, vira locatário.
  • Com Pereira: Vende imóvel + operação + marca, sai do ponto.

O negócio com o Pereira inclui nove drogarias e três postos de combustíveis. As lojas serão convertidas para a bandeira Comper. A operação já recebeu aval do Cade em 7 de outubro.

Líder de faturamento, mas sob pressão de eficiência

Mesmo com as vendas de ativos, o Carrefour segue no topo do Ranking ABRAS 2026. O faturamento de R$ 123,6 bilhões em 2025 coloca o grupo à frente do Assaí (R$ 84,7 bi) e do Grupo Mateus (R$ 43,6 bi). O portfólio reúne Atacadão, Sam’s Club, supermercados tradicionais e proximidade.

A liderança em receita, contudo, não imuniza a companhia contra a necessidade de otimizar o retorno sobre capital investido (ROIC). O mercado cobra cada vez mais eficiência na alocação de ativos — e imóveis ociosos ou subutilizados viraram alvo prioritário.

O que observar nos próximos trimestres

A aprovação do Cade para a operação com o Pátria é o gatilho imediato. Após o sinal verde, entra em vigor o contrato de locação que ditará o custo de ocupação por anos. Analistas devem monitorar:

  • A taxa de cap rate implícita na transação (aluguel/valor do imóvel).
  • O destino do caixa levantado: recompra de ações, redução de alavancagem ou Capex?
  • O impacto do novo aluguel no EBITDA ajustado a partir de 2025.

Se a gestão aplicar o recurso em projetos com retorno superior ao custo do aluguel, a jogada cria valor. Caso contrário, a liderança no faturamento pode conviver com uma rentabilidade pressionada. O próximo balanço trará as primeiras pistas.