Educação

O segredo do PISA 2025: por que sua empresa vai sentir falta de talentos

Estudantes brasileiros em sala de aula com notas baixas do PISA 2025 e ícones de inteligência artificial
Crise educacional no Brasil: 70% dos jovens não atingem nível básico de numeracia segundo PISA 2025

O último PISA expôs o pior desempenho da história da OCDE em matemática e leitura justamente quando o mercado mais exige pensamento crítico. No Brasil, sete em cada dez jovens de 15 anos não atingem o nível básico de numeracia. O que isso significa para quem contrata ou investe nos próximos cinco anos?

O paradoxo da IA na sala de aula

A avaliação revelou um dado contra-intuitivo: estudantes que recorrem à inteligência artificial para tarefas escolares apresentam desempenho inferior em ciências. A tecnologia ampliou o acesso à informação, mas falhou em desenvolver a faculdade de avaliar fontes, cruzar dados e distinguir fato de opinião.

Para o setor produtivo, o recado é direto: a entrada de ferramentas generativas no fluxo de trabalho não substitui a necessidade de profissionais que saibam pensar. Pelo contrário, eleva o valor de quem consegue auditar o output da máquina.

Cidadania: a competência que o algoritmo não ensina

O sociólogo Marcelo Burgos define cidadania como a capacidade contínua de construir um projeto de vida e contribuir com a comunidade. Na prática, isso se traduz em responsabilidade, respeito, atitude democrática e pensamento crítico — habilidades que algoritmos tendem a restringir ao criar bolhas de confirmação.

Escolas que focam apenas em hard skills técnicas correm o risco de formar técnicos frágeis diante de cenários complexos e ambíguos. A dimensão coletiva da formação deixou de ser “assunto de RH” para virar risco operacional.

O abismo brasileiro: dois sistemas, um mesmo risco

Os números expõem uma fratura exposta:

  • 50% dos jovens de 15 anos abaixo do nível básico em leitura e ciências;
  • 70% na mesma condição em matemática;
  • Os 25% mais ricos aproximam-se da média da OCDE, mas correm o risco de reduzir a educação a interesses privados.

Enquanto a rede pública luta pelo básico, a rede de elite pode estar formando profissionais desconectados da realidade sistêmica. Para o investidor, isso significa um funil de talento estreito na base e enviesado no topo.

O que Suíça e Dinamarca fazem diferente

Nos modelos de referência europeus, o setor produtivo não apenas absorve mão de obra — ele co-projet a formação. Na Suíça e na Áustria, a formação profissional dual combina escola e experiência empresarial desde cedo. Na Dinamarca, empregadores e trabalhadores definem juntos os percursos formativos.

O resultado é uma transição escola-trabalho fluida e currículos alinhados à demanda real. No Brasil, a desconexão entre grade curricular e necessidades do mercado segue como gargalo estrutural.

Filantropia bilionária, impacto invisível

Segundo o GIFE 2025, 67% do capital filantrópico nacional vai para educação. Porém, a maior parte não chega ao “chão da escola”: currículo, infraestrutura, gestão e práticas pedagógicas continuam desprovidos de iniciativas estruturadas que ouçam quem vive a realidade diária.

Fortalecer laços, valorizar o professor e compreender o contexto do estudante não são “boas práticas” — são pré-condições para que qualquer investimento em edtech ou capacitação faça sentido.

O que observar daqui para frente

Três movimentos merecem radar nos próximos trimestres: a regulamentação do uso pedagógico de IA nas redes estaduais, a expansão de polos de formação técnica integrados a cadeias produtivas regionais e a revisão do Fundeb com fixo em indicadores de aprendizagem, não apenas de matrícula. Quem antecipar a conexão entre cidadania ativa e produtividade sustentável vai liderar a formação do futuro quadro de talentos — com ou sem “Plano Real” da educação.