Uma fotografia postada por Flávio Bolsonaro no Instagram foi apresentada como prova em uma batalha judicial pela Ilha Comprida, em Angra dos Reis. A imagem, registrada durante visita do senador em janeiro de 2021, acabou no centro de um conflito que opõe a empresa do jogador Richarlison a uma companhia ligada ao advogado Willer Tomaz.
O caso expõe como registros pessoais podem ser descontextualizados em disputas patrimoniais de alto valor. Mas a fotografia é apenas a ponta visível de um imbróglio que envolve contratos milionários, transferências de direitos na Secretaria do Patrimônio da União e uma decisão judicial que apontou omissão de documentos.
Como a imagem do senador foi parar no processo
Em maio de 2022, a Sport 70 — empresa que detinha 75% dos direitos possessórios da ilha, adquiridos por R$ 2,625 milhões — apresentou petição ao Tribunal de Justiça do Rio. O documento acusava a parte adversária de usar a foto de Flávio Bolsonaro para sustentar que melhorias no imóvel teriam sido realizadas sob sua gestão.
Segundo a Sport 70, o senador esteve na propriedade a convite da própria empresa. O registro foi feito por representantes da companhia e publicado no perfil oficial do parlamentar. A disputa não questionava a presença de Flávio no local, mas o uso posterior da imagem para atribuir a terceiros obras executadas durante a ocupação da Sport 70.
Os números por trás da mansão de Richarlison
O jogador do Tottenham afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões na mansão durante a pandemia. A estrutura societária por trás do negócio envolve:
- Outubro de 2020: Sport 70 (75%) e YTA Consultoria (25%) assinam contratos de direitos possessórios — total de R$ 3,5 milhões
- Junho de 2021: Acordo com antigos ocupantes encerra disputas anteriores; pagamentos previstos de R$ 1,16 milhão
- Julho de 2022: SPU registra transferência dos direitos de ocupação da M Locadora para a WT Administração de Imóveis, de Willer Tomaz
Richarlison sustenta que não recebeu compensação pelos aportes. Willer Tomaz nega irregularidades e afirma que a aquisição ocorreu dentro da legalidade. Flávio Bolsonaro também nega participação nas negociações imobiliárias.
Juiz identificou negociação omitida antes da ação
Em 18 de julho de 2022, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior, da 2ª Vara Cível de Angra dos Reis, revogou decisão provisória favorável à M Locadora. O magistrado constatou que a empresa ocultou uma promessa de compra e venda assinada em 25 de abril — antes mesmo de ajuizar a ação possessória em 6 de maio.
Para o julgador, a finalidade do processo não era resolver um conflito de posse, mas concretizar um negócio imobiliário mantido em sigilo. A decisão, contudo, tem caráter provisório e não encerra a disputa.
Episódios distintos, mesmo tabuleiro
A constatação sobre a negociação omitida e o uso da fotografia de Flávio Bolsonaro são fatos separados, embora ocorram no mesmo litígio. Não há, até o momento, reconhecimento judicial de fraude na utilização da imagem. O que existe é um padrão: documentos e registros sendo apresentados seletivamente para favorecer versões específicas sobre quem de fato ocupou e valorizou o imóvel.
Enquanto a esfera cível analisa a posse e os contratos, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz seguem investigados pela Polícia Federal em apuração sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo casas de apostas — investigação paralela, mas que projeta sombra adicional sobre os personagens centrais desta disputa.
O que observar nos próximos capítulos
A reintegração de posse determinada em julho de 2022 ainda pode ser revista em instâncias superiores. A definição final sobre quem detém os direitos de ocupação da Ilha Comprida dependerá da análise do mérito dos contratos de 2020, da validade da transferência na SPU e do peso probatório de cada documento — incluindo a fotografia que, tirada do contexto original, ganhou vida própria nos autos. Para investidores e empresários, o caso serve de alerta: em disputas imobiliárias de alto valor, até postagens em redes sociais podem virar peças processuais.
