Economia

Desenrola 3.0 mira R$ 90 bi e pode superar programas anteriores somados

Desenrola 3.0: programa federal de renegociação de dívidas mira R$ 90 bi
Lançamento do Desenrola 3.0 promete renegociar até R$ 90 bilhões em dívidas inadimplentes.

O governo federal lança nesta quinta-feira (22) a terceira edição do programa de renegociação de dívidas em três anos, com potencial para absorver até R$ 90 bilhões em débitos inadimplentes — valor superior à soma das duas versões anteriores. A medida é anunciada no momento em que a inadimplência no crédito livre atinge 6,61%, maior patamar da série histórica iniciada em 2011.

O que muda em relação aos ciclos anteriores

O Desenrola original, vigente entre julho de 2023 e maio de 2024, renegociou R$ 53,2 bilhões de 14,8 milhões de pessoas com descontos de 85% a 90%. Já a versão 2.0, encerrada em agosto, movimentou R$ 28,37 bilhões em valor original, mas apenas R$ 5,71 bilhões foram efetivamente repactuados com garantia do FGO (Fundo de Garantia de Operações), com desconto médio de 80%.

A nova rodada amplia o escopo: incluem-se dívidas de cartão de crédito (rotativo e parcelado), crédito pessoal, contas de serviços públicos e varejo, com atraso entre dois e quatro anos e meio. O público-alvo permanece pessoas físicas e MEIs com renda até cinco salários mínimos (R$ 8.105).

Mecânica de compra e o papel da Caixa

A Caixa Econômica Federal atuará como compradora das carteiras inadimplentes ofertadas por instituições financeiras. O desconto mínimo legal na aquisição é de 90%, mas a expectativa do governo é conseguir abatimentos ainda maiores. O consumidor final pode obter até 90% de desconto na renegociação, embora a MP não fixe percentual obrigatório por contrato individual.

O mercado secundário de carteiras com mais de 90 dias de atraso movimenta atualmente R$ 50 a R$ 55 bilhões ao ano, segundo a Deloitte. A consultoria estima que outros R$ 600 bilhões encontram-se fora do balanço dos bancos — volume que, em tese, poderia ser ofertado ao programa.

Bancos privados ainda avaliam adesão

Diferente das edições anteriores, os grandes bancos privados demonstram cautela. Ainda não há sinalização clara de quais instituições colocarão carteiras à venda. No Desenrola 2.0, o Nubank liderou as renegociações (mais de R$ 1 bilhão), seguido pelo Bradesco (R$ 660 milhões) — ambos com forte exposição ao público de baixa renda contemplado pelo programa.

Para o Nubank, a edição anterior reduziu o custo de crédito do balanço em 5%, economia de US$ 85 milhões (cerca de R$ 443 milhões). O efeito contábil positivo, contudo, não elimina a preocupação estrutural.

Risco moral e o ciclo que não se fecha

Especialistas ouvidos pela reportagem convergem em um diagnóstico: programas sucessivos de renegociação criam incentivo para que devedores adiem pagamentos na expectativa de novo socorro. O UBS BB calcula que, mesmo com as duas primeiras edições, o número de negativados cresceu 2,7 milhões entre o fim de 2022 e agosto de 2024, totalizando 84 milhões de brasileiros — 51% da população adulta.

“É uma política de alívio financeiro, não de combate às causas estruturais do endividamento”, resume Lauro Gonzalez, coordenador do FGV Cemif. Katherine Hennings, do FGV Ibre, nota que o primeiro Desenrola reduziu temporariamente a inadimplência de baixa renda, mas o efeito não se sustentou.

Comparativo com a proposta alternativa

No debate presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) apresentou proposta distinta: refinanciamento pela Caixa com carência de seis meses para pessoas físicas e um ano para jurídicas, sem especificação de teto ou desconto mínimo. O modelo incluiria pessoas jurídicas e abertura de novo crédito pós-renegociação.

  • Público: Desenrola 3.0 atende PF e MEI; proposta alternativa incluiria PJ.
  • Carência: não prevista no programa atual; seis a doze meses na alternativa.
  • Desconto: mínimo 90% na compra das carteiras (governo); não definido na proposta alternativa.
  • Teto: R$ 90 bilhões até dezembro; sem limite anunciado na alternativa.

Para o ministro Dario Durigan (Fazenda), a proposta alternativa é “impossível de implementar” e prejudicaria o acesso a crédito para bens de consumo e imóveis. Ana Rosa Vilches (DSOP Educação Financeira) alerta que a carência prolongada pode gerar falsa sensação de alívio, levando a novo endividamento antes mesmo do início dos pagamentos.

O que observar daqui para frente

A eficácia do Desenrola 3.0 dependerá de três variáveis: volume real de carteiras ofertadas pelos bancos, velocidade de adesão dos devedores e, principalmente, se haverá política complementar de educação financeira no momento da renegociação — não meses depois, em formato de cartilha. Carol Stange, planejadora financeira CFP, reforça: “Antes de assinar, a pessoa precisa ver, em linguagem clara, o custo total da dívida e o peso da parcela na renda. Muita gente fecha olhando só a parcela e descobre depois que também não cabe no orçamento.”

Sem enfrentar juros reais elevados, risco fiscal e ausência de planejamento orçamentário das famílias, o ciclo de renegociações emergenciais tende a se repetir — com custo fiscal crescente e efeito cada vez mais curto sobre os indicadores de inadimplência.