Economia

Arroz: El Niño falha, mas preços e exportações surpreendem; veja o que muda

Lavoura de arroz alagada por chuvas excessivas no Rio Grande do Sul durante plantio da safra 2024
Excesso de chuvas no Sul atrasa plantio do arroz enquanto El Niño frustra previsão de seca

O temido “El Niño bomba” ainda não cumpriu a ameaça de seca no Sul, mas o excesso de umidade já atrapalha o plantio do arroz e do feijão. Enquanto a soja avança a passos largos, o cereal básico da mesa do brasileiro vive um jogo de forças entre custos altos, demanda fraca e uma janela de exportação que se abre.

O que está no radar do produtor agora

Segundo o analista Vlamir Brandalizze, o volume de chuva no Rio Grande do Sul está acima da média histórica para o período. O resultado prático: só 50% da área projetada foi semeada até aqui, contra 70% em anos normais. A cultura exige “água no pé e sol na cabeça” — o céu encoberto e o frio travam o desenvolvimento inicial das lavouras.

Na soja, o cenário é oposto. Mato Grosso acelerou o plantio na última semana. No Paraná, a chuva deu uma trégua e as máquinas voltaram a campo. Mato Grosso do Sul e Goiás também mostram boa evolução. O milho de verão entra na reta final com otimismo: a área da primeira safra cresceu este ano.

Feijão: frio fora de hora ameaça a florada

O alerta mais forte vem do feijão. No Paraná e no sudoeste de São Paulo, termômetros abaixo de 15°C provocam abortamento da flor. A tendência, nas palavras do analista, é de “produção baixa” nas duas regiões tradicionais. O impacto direto pressiona a oferta interna num momento em que os estoques já estão apertados.

Arroz: a conta entre área, custo e preço

  • Área 2026/27: 1,55 milhão de hectares no total.
  • Rio Grande do Sul: recuo para 850 mil hectares.
  • Tocantins: expansão de 95 mil para 110 mil hectares.
  • Produção estimada: 10,5 milhões de toneladas (queda frente ao ciclo anterior).

O preço reagiu forte no segundo semestre: saiu de R$ 50 a saca na safra para picos de R$ 82 no Sul. Nas últimas semanas, porém, arrefeceu para R$ 78–79. Três forças explicam o recuo: exportações em bom ritmo, menor entrada de arroz do Mercosul e varejo queimando estoques comprados na baixa. A indústria resiste a recompor posições à espera de sinais macroeconômicos.

Demanda interna: o freio invisível

Brandalizze aponta um dado comportamental relevante: a demanda por arroz e feijão não cresce, apesar de serem itens essenciais. A população endividada reduz compras e parte da renda alimentar migra para apostas. Sem consumo aquecido, o repasse de alta de custo ao consumidor final trava — e a margem do produtor fica comprimida mesmo com saca acima de R$ 75.

O risco climático real e a carta na manga

Para o arroz, o El Niño só vira problema se trouxer enchentes de grande magnitude. Enchentes menores são manejáveis; as chuvas atuais, inclusive, encheram as lagoas de irrigação. “Para o arroz, é mais complicado a falta de água do que o excesso”, resume o analista. Isso dá fôlego para a safra, desde que o sol apareça nas próximas semanas.

Janela de exportação: 2 milhões de toneladas até novembro

O mercado externo joga a favor. Ásia, grande ofertadora global, colhe menos por problemas climáticos e eleva preços. O Brasil ganha competitividade na América Central e na África. A projeção é embarcar 2 milhões de toneladas de arroz em casca já em novembro — volume que ajuda a drenar o excedente interno e sustenta o patamar de preços ao produtor.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis ditam o rumo do mercado: (1) a volta do sol no Sul para destravar o desenvolvimento do arroz; (2) a disposição da indústria em recompor estoques diante da safra menor projetada; (3) o câmbio e a renda real, que determinam se o varejo consegue repassar custos sem perder volume. Se o clima colaborar e a exportação mantiver o ritmo, a saca pode voltar a testar R$ 80 ainda neste trimestre.