A temporada de balanços do terceiro trimestre de 2026 começou, mas o lucro de julho a setembro é apenas o pano de fundo. O mercado já precificou a desaceleração atual e olha fixamente para 2027: quem mostrar caixa, desalavancagem e margens resilientes agora, larga na frente na próxima alta da Bolsa.
Especialistas consultados concordam: resultados fracos por causa dos juros altos serão perdoados. Falhas de execução, perda de market share ou deterioração estrutural de margens, não. A seletividade nunca foi tão decisiva.
O “efeito Petrobras” esconde a fraqueza do resto
O Santander projeta alta de 12,1% no Ebitda agregado de sua cobertura no 3T26. Retire o petróleo da equação e o crescimento cai para 3,2%. A estatal sozinha responde por mais Ebitda incremental do que todas as outras empresas somadas.
Na mediana, sem bancos, a receita mal acompanha a inflação. Metade das companhias deve encolher em termos reais. O Bradesco BBI confirma: o lucro do MSCI Brazil sobe 30% no ano, mas 16 pontos percentuais vêm só da Petrobras. A Vale, sozinha, subtrai 1 ponto.
Bancos: lucro robusto, mas o diabo mora nas provisões
O setor financeiro deve crescer lucro perto de 20% (Santander) a 25% (BBI). A divergência entre nomes, porém, é o grande tema.
- Itaú (ITUB4): Referência de rentabilidade. Lucro projetado em R$ 12,5 bi (+5,3%). Carteira disciplinada, custo controlado.
- Bradesco (BBDC4): Recuperação operacional continua. Lucro estimado em R$ 7,1 bi (+15%), mas ROE travado em 16,2% por provisões e diluição de capital.
- Banco do Brasil (BBAS3) e Santander Brasil (SANB11): Sob pressão. BB frágil por deterioração de carteira e exposição à recuperação extrajudicial da Casas Bahia.
- Nubank (NU): Destaque absoluto. Lucro perto de R$ 6,3 bi (+80% a/a). Expansão de crédito com margens altas. Ainda há cautela para 2027.
Para André Matos (MA7 Capital), o número do trimestre importa menos que a sinalização de provisões para 2027. O mercado vai precificar o balanço olhando para a frente.
Varejo sangra; Smart Fit e “defensivas” fogem do caos
Juros altos, endividamento das famílias e até a Copa do Mundo tiraram fluxo das lojas. Magazine Luiza (MGLU3) e Assaí (ASAI3) devem reportar vendas mesmas lojas (SSS) fracas ou negativas.
Exceções: Smart Fit (SMFT3) (exposição regional diversificada), Alpargatas (ALPA4) e Grupo PetzCobasi (AUAU3). No vestuário, a XP vê margem bruta resiliente, mas receita pressionada por competição cross-border e clima volátil. O ganho de 2027 virá de execução, não de preço.
Energia, Saneamento e Telecom: porto seguro com asterisco
Demanda firme sustenta receita e Ebitda em elétricas e saneamento (Copasa, Sanepar, Sabesp). O alerta: dívida subindo para bancar capex pesado. Lucro líquido pressionado agora, alívio esperado a partir de 2027.
Em telecom, Vivo (VIVT3) e TIM (TIMS3) crescem receita de serviços (6,2% e 5,4% a/a, segundo BBI) e expandem margens. Portabilidade agressiva e concorrência de preços limitam o upside.
Mineração e Siderurgia: o peso do minério
Minério de ferro fraco derruba Vale (VALE3), CSN Mineração (CMIN3) e CSN (CSNA3). Preços realizados menores, frete caro, volumes fracos.
Lado positivo: Suzano (SUZB3) (Ebitda +8% t/t, volume e custo) e Irani (RANI3) (+12%, sazonalidade e SG&A). Aura (AURA33) melhora 9% no Ebitda com recuperação de volumes.
Saúde e Seguros: sinistralidade cai, juros ajudam
Operadoras se beneficiam de sinistralidade comportada e adição de vidas (SulAmérica, Rede D’Or, Bradesco Saúde). Fleury (FLRY3) lidera diagnósticos (+13,4% receita, 9% orgânico). Dasa (DASA3) expande margem e gera caixa forte.
Seguradoras ganham com Selic alta no resultado financeiro. BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3) crescem lucro sequencial. Porto Seguro (PSSA3) deve ter trimestre pressionado.
O que separa os vencedores daqui para frente
A Bolsa já antecipou a queda de juros. “Bom” não basta mais. O prêmio vai para quem entregar:
- Expansão de margem real (não só repasse de inflação);
- Desalavancagem consistente;
- Geração de caixa livre previsível;
- Visibilidade clara de como crescem com juros a 11% (projeção BBI para fim de 2027).
O BBI estima que 3/4 das ações brasileiras se beneficiam de juros menores, com a curva ainda 150 pontos-base acima desse alvo. A rotação deve migrar de commodities para domésticos sensíveis a juros (bancos, varejo, consumo, construção) conforme a temporada avança.
Seu radar para as próximas semanas
Acompanhe de perto a conferência de resultados do Itaú e do Nubank: a gestão de provisões e a guida de carteira ditam o tom do setor financeiro. No varejo, olhe SSS e comentário sobre estoque/Black Friday. Em petróleo, qualquer sinal de dividendo extraordinário da Petrobras move o índice. E, transversalmente, caça às empresas que aumentaram Caixa Líquido no trimestre — elas são as que vão ditar o ritmo de 2027.
