El Salvador voltou atrás: o dólar é, novamente, a única moeda de curso legal obrigatório no país. A adoção do Bitcoin como moeda oficial durou menos de três anos e terminou em silêncio, sem a “Bitcoin City” prometida e com adesão popular próxima de zero. O experimento mais radical da história monetária recente deixou lições caras para quem aposta em ativos digitais como política de Estado.
O governo comprou 7.798 Bitcoins com dinheiro público — hoje avaliados em US$ 636 milhões — mas a criptomoeda nunca substituiu o dólar no bolso do cidadão comum. Em janeiro de 2025, 91,8% dos salvadorenhos disseram não ter usado o ativo no ano anterior. A promessa de baratear remessas, que representam 26,3% do PIB, também falhou: apenas 0,7% do dinheiro vindo do exterior passou por carteiras cripto nos primeiros quatro meses de 2026.
Onde o plano rachou primeiro
A estratégia começou com incentivos agressivos. O Estado gastou US$ 150 milhões em um fundo fiduciário e deu US$ 30 (cerca de R$ 150 na época) para quem baixasse a carteira estatal Chivo. O resultado foi um “estouro de bolha” imediato: a maioria sacou o bônus e abandonou o aplicativo.
Pesquisas de 2022 já mostravam o abismo entre discurso e realidade. Apenas 1 em cada 5 empresas aceitava Bitcoin e só 5% dos impostos eram pagos com a moeda. Dois anos depois, o uso concentrava-se quase exclusivamente na região turística de “Bitcoin Beach”, em El Zonte.
- Investimento público em infraestrutura cripto: US$ 200 milhões (fundo + caixas eletrônicos).
- Reserva atual do Estado: 7.798 BTC (≈ US$ 636 milhões).
- Adesão real (2025): 8,2% da população usou no último ano.
- Participação nas remessas (jan-abr/2026): 0,7% do total (US$ 23,1 mi).
A aposta nos “Títulos Vulcão” e a cidade que não existe
O passo mais ousado — e o que mais assustou credores internacionais — foi a Lei de Emissão de Ativos Digitais, de 2023. A ideia: emitir dívida lastreada em Bitcoin para financiar metade da compra de mais moedas e metade da construção da “Bitcoin City” aos pés do vulcão Conchagua, minerando com energia geotérmica.
Nenhum título foi emitido. Nenhum tijolo da cidade foi assentado. A volatilidade do ativo — que caiu mais de 60% em 2022 — tornou a engenharia financeira insustentável para um país que precisava de credibilidade para rolar dívidas soberanas.
Mas o efeito mais relevante aparece nas contas externas.
A conta chegou: o FMI ditou as regras
Em dezembro de 2024, El Salvador fechou um empréstimo de US$ 1,4 bilhão com o Fundo Monetário Internacional. A condição inegociável: “reduzir riscos associados ao Bitcoin”. Em janeiro de 2025, a Assembleia Legislativa revogou o curso legal obrigatório e tornou a aceitação voluntária. Em setembro, o controle majoritário da carteira Chivo passou para a empresa privada Linguard Labs.
O governo manteve as compras de Bitcoin mesmo após o acordo, alegando que as novas aquisições vieram de “doações privadas”. O FMI aceitou a explicação, mas exigiu o fim de investimentos com dinheiro público. A origem exata desses recursos e a auditoria das doações seguem opacas.
O que os números não explicam (e o que observar agora)
Para o economista Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central salvadorenho, o projeto “fracassou” nos seus objetivos declarados: inclusão, redução de custo de remessas e adoção em massa. No entanto, ele ressalva que a reserva atual não gerou prejuízo contábil líquido frente a alternativas de tesouraria.
Frank Muci, da London School of Economics, resume: foi um “nothing burger” macroeconômico. O que realmente transformou a economia — e garantiu a reeleição de Bukele com 90% dos votos — foi a drástica redução da violência, não a criptomoeda.
Daqui para frente, três variáveis definem se o legado tecnológico sobrevive à política:
- Relançamento da Chivo: a parceria público-privada promete microcrédito, remessas grátis dos EUA e multiativos. Se escalar, vira caso de estudo de “superapp” emergente.
- Regulação de ativos digitais: a lei de 2023 permanece vigente. Samson Mow (JAN3) argumenta que ela criou um ambiente regulado que atrai empresas do setor — um ativo intangível.
- Transparência das reservas: enquanto o Escritório Nacional do Bitcoin publicar compras em tempo real sem detalhar a origem dos fundos “doados”, o risco reputacional persiste para investidores de dívida soberana.
El Salvador provou que um Estado pode comprar Bitcoin, mas não pode forçar sua circulação. Para o mercado, o sinal é claro: adoção orgânica vence imposição legal. Acompanhe a execução do novo modelo Chivo e a auditoria das doações — é ali que mora o próximo capítulo de risco ou oportunidade.
