Grandes gestores de fundos e executivos do setor de mineração convergem para um mesmo cenário: o ouro deve romper sua máxima histórica nos próximos 12 a 24 meses. A previsão ganha força enquanto bancos centrais acumulam o metal no ritmo mais acelerado desde o fim de 2024.
Nesta quarta-feira (14), a onça-troy recuou 2%, para US$ 4.075, pressionada pela expectativa de novas altas de juros pelo Federal Reserve. O movimento, porém, é visto como correção técnica por quem dita o tom no mercado institucional.
O que move as compras recordes dos bancos centrais
Em setembro, as aquisições oficiais somaram 63 toneladas — maior volume mensal desde novembro de 2024, segundo dados preliminares do Conselho Mundial do Ouro compilados a partir de relatórios do FMI. A corrida não é isolada: instituições de mercados emergentes buscam reduzir a dependência do dólar como moeda de reserva.
O Banco Popular da China ilustra a tendência. O ouro já responde por 9% das reservas totais da autoridade monetária chinesa, totalizando 2.410 toneladas. A diversificação para fora de títulos do Tesouro americano tornou-se estratégia de preservação de valor, não apenas tática de curto prazo.
- 63 toneladas compradas pelos BCs em setembro (maior nível em ~2 anos)
- 2.410 toneladas nas reservas do Banco Popular da China (9% do total)
- US$ 5.500 foi o recorde histórico atingido em janeiro deste ano
Por que gestores veem piso em US$ 4.000
Charlotte Yonge, da Troy Asset Management, projeta novo topo histórico entre 12 e 18 meses. O argumento central: o metal funciona como hedge irreplicável contra a deterioração fiscal — especialmente a escalada da dívida pública americana e a expectativa de emissão monetária massiva na próxima recessão.
“O ouro não pode ser emitido da mesma maneira”, resumiu Yonge durante o Simpósio de Metais Preciosos do Financial Times. A gestora destaca que a armação do dólar como instrumento geopolítico acelera a busca por alternativas neutras.
Paul Carne, da Aon Investments, reforça o prazo de até dois anos para novos recordes. “Quando você transforma o dólar em uma arma, não se surpreenda quando as pessoas pararem de usá-lo. O que vão usar no lugar?”, questionou, citando o ouro como resposta natural.
O alerta dos veteranos do setor minerador
Peter Marrone, CEO da Allied Gold, vai além: vê sinais de um evento financeiro iminente. Family offices — estruturas que gerem fortunas de famílias ultra-ricas — já estão substituindo títulos soberanos por ouro físico em suas alocações.
Ian Cockerill, à frente da Endeavour Mining, coloca US$ 4.000 como referência técnica de suporte. “Se não for o piso, está muito perto disso para a próxima perna de alta”, afirmou. O executivo aponta três pilares de sustentação: cenário macroeconômico adverso, perda de confiança nas moedas fiduciárias e a obrigação dos BCs de preservar o poder de compra de suas reservas.
O que observar daqui para frente
Suki Cooper, do Standard Chartered, ressalva que a demanda oficial permanece “muito forte”, embora alguns bancos centrais tenham realizado vendas pontuais este ano para captar liquidez após o agravamento do conflito no Oriente Médio. O fluxo líquido, contudo, segue positivo.
Para o investidor profissional, o monitoramento de dois indicadores torna-se crítico: o ritmo mensal de compras dos bancos centrais emergentes — especialmente China e Índia — e a evolução da participação do ouro nas reservas globais, hoje ainda abaixo de patamares históricos. A próxima reunião do FMI e os dados de inflação americana em novembro devem ditar o ritmo de curto prazo.
