Os dois principais nomes da corrida presidencial de 2026 divergem radicalmente no nível de detalhe sobre ciência no campo. Enquanto um promete “prioridade” genérica, o outro cita edição genômica e agricultura de precisão — mas nenhum dos dois abre o orçamento. O produtor rural fica no escuro sobre quanto e quando o dinheiro chega na ponta.
A Embrapa e a CNA já entregaram a conta: sem previsibilidade de recursos, o próximo salto produtivo — cultivares resistentes à seca, bioinsumos em escala, fertilizantes nacionais — trava na fase de laboratório. A seguir, o que cada programa efetivamente diz, o que omite e o que o setor cobra para não perder competitividade.
Flávio Bolsonaro: inovação no discurso, vazio no planejamento agro
O capítulo de tecnologia do programa do PL trata pesquisa e desenvolvimento como motores do crescimento econômico. O texto, porém, não menciona a Embrapa, não define metas para melhoramento genético e não aponta linhas prioritárias para edição genômica ou bioinsumos.
Na prática, a proposta se resume a uma declaração de intenção. Não há cronograma, não há valor orçamentário e não há mecanismo de governança que garanta continuidade entre gestões. Para o empresário que decide investir em sementes ou equipamentos hoje, a sinalização é de risco regulatório alto.
Bioeconomia e fertilizantes: a ponte que não existe
O programa prevê estimular biotecnologia, fármacos, cosméticos e novos materiais a partir da biodiversidade. Também promete apoiar a produção nacional de potássio e fosfato para reduzir a dependência de fertilizantes importados — hoje acima de 85% do consumo.
- O gargalo: não há menção a como conectar essa bioeconomia à pesquisa agropecuária aplicada.
- O vazio: nenhuma agenda de P&D para aumentar a eficiência agronômica dos fertilizantes nacionais.
- O resultado: o produtor segue refém de câmbio e logística internacional.
Mas o efeito mais relevante aparece quando se olha para o outro lado da disputa.
Lula: Embrapa no centro, metas no vazio
O programa do PT cita explicitamente o fortalecimento da Embrapa para manter a liderança em tecnologia tropical. Lista prioridades técnicas: biotecnologia, edição genômica, cultivares tolerantes a estiagem e pragas. A linguagem é de quem conhece o laboratório.
O problema está no que falta. Não há orçamento dedicado, não há metas quantitativas de cultivares lançadas por ano e não há cronograma para os investimentos em edição genômica. A direção está correta; a execução, indefinida.
Agricultura de precisão e resiliência climática: o pacote operacional
Lula propõe um programa nacional de resiliência climática com cinco eixos concretos:
- Expansão de áreas irrigadas
- Conservação de solos
- Incentivo à agricultura de precisão e plantio direto
- Modernização do monitoramento meteorológico
- Sistemas de alerta precoce para produtores
A agricultura de precisão — sensores, dados, taxa variável de insumos — já provou reduzir desperdícios em 15% a 20% em propriedades que adotam o pacote completo. O plano também prevê ampliar a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), sistema que melhora retenção hídrica e ciclagem de nutrientes.
Novamente, o detalhe que faz diferença no bolso do produtor está ausente: metas de área coberta, verbas para modernização de radares e estações, subsídios ou linhas de crédito para aquisição de tecnologia.
Bioinsumos: a aposta comum, o detalhe que separa
Ambos os programas citam bioinsumos como caminho para reduzir a dependência de fertilizantes químicos importados. Lula coloca a proposta no eixo de agricultura familiar e produção sustentável; Flávio, no guarda-chuva da bioeconomia.
Nenhum dos dois define:
- Volume alvo de produção nacional (em toneladas/ano)
- Percentual de substituição de fertilizantes sintéticos
- Investimento em P&D para registro e escala industrial
- Marco regulatório para acelerar aprovação de novos produtos
Hoje, o Brasil importa cerca de 40 milhões de toneladas de fertilizantes por ano. A transição para bioinsumos em escala relevante exige infraestrutura de fermentação, logística de cadeia fria e assistência técnica — itens que não nascem de decreto.
O que a ciência e o setor produtivo cobram — e ninguém respondeu
Em agosto de 2026, a Embrapa entregou aos candidatos uma agenda com seis prioridades inegociáveis:
- Fortalecimento da pesquisa com previsibilidade orçamentária
- Adaptação da agricultura às mudanças climáticas
- Digitalização do campo e inclusão digital rural
- Ampliação do acesso à tecnologia por médios e pequenos
- Biotecnologia, agricultura de precisão, melhoramento genético
- Soluções baseadas na natureza e gestão de riscos climáticos
A estatal não cravou um número de orçamento. A reivindicação central é estabilidade de fluxo — romper o ciclo de contingenciamentos que paralisa projetos de longo ciclo (10 a 15 anos para uma cultivar).
A CNA, em sua Agenda Legislativa do Agro 2026, reforça: sistema nacional de CT&I com continuidade entre governos, uso eficiente de insumos e água, formação para Agro 4.0, dados agropecuários abertos e edição gênica. O documento de 2022 segue como referência histórica — sinal de que as demandas não mudaram, mas as respostas continuam ausentes.
O que observar daqui para a frente
Três variáveis definem se o próximo governo transforma discurso em produtividade: (1) lei orçamentária com dotação plurianual carimbada para Embrapa e ICTs agro; (2) marco legal que dê segurança jurídica à edição genômica e ao registro de bioinsumos; (3) programa de crédito direcionado — com juros equalizados — para aquisição de kits de agricultura de precisão por propriedades abaixo de 1.000 hectares. Sem esses três pilares, o “próximo salto tecnológico” continua no PowerPoint. O produtor que antecipar a leitura desses sinais — e não das promessas — decide melhor onde alocar capital nos próximos dois ciclos de safra.
