A Hydro, controladora da Alunorte, abriu concorrência para comprar fatia de um parque eólico e garantir 120 MW médios a partir de 2029. A operação mira a autoprodução, mas carrega um efeito colateral direto: a concentração de encargos setoriais nos consumidores que ficarem de fora do modelo. Entenda como a eletrificação da maior refinaria de alumina do mundo mexe no tabuleiro de energia brasileiro.
A engenharia por trás da autoprodução
A estrutura prevê a aquisição de cerca de 30% do capital da empresa titular do ativo eólico. Na prática, a Hydro deixa de ser apenas compradora de energia para se tornar sócia do gerador, fechando um PPA (Contrato de Compra de Energia de Longo Prazo) com a Hydro Rein — joint venture onde a norueguesa tem 50,1% e a australiana Macquarie Asset Management detém o restante.
O formato blinda a companhia de volatilidades de preço e isenta determinados encargos setoriais. Para a operação industrial, significa previsibilidade orçamentária e redução de custo operacional. Para o setor, representa mais uma migração de grande consumidor para o ambiente de autoprodução.
O motor da demanda: caldeiras elétricas no lugar do carvão
A pressa por electrons novos tem endereço certo: a Alunorte. O consumo atual da refinaria já ultrapassa 800 MW médios e a curva é ascendente. Em janeiro de 2025, entraram em operação duas novas caldeiras elétricas de vapor, somando-se à primeira unidade instalada em 2022.
O investimento nas duas unidades recentes somou R$ 318 milhões. O trio de equipamentos substitui caldeiras a carvão e entrega uma redução estimada de até 550 mil toneladas de CO₂ por ano. A descarbonização do processo produtivo, portanto, passa obrigatoriamente por contratar volume massivo de energia firme e renovável.
Contratos ativos e a nova frente de negociação
A Alunorte não está descoberta no mercado. A refinaria já possui PPAs de longo prazo com:
- Usina solar Mendubim (Rio Grande do Norte);
- Complexo eólico Ventos de São Zacarias (divisa PE/PI).
A nova concorrência, conduzida com os principais players eólicos do país, visa suprir o degrau adicional de demanda criado pela eletrificação contínua. O fornecimento combinado precisa acompanhar a conversão do parque térmico da fábrica.
O custo invisível: quem paga a conta dos encargos?
A isenção de encargos para autoprodutores não elimina o custo do sistema — ela o realoca. As despesas financiadas por esses encargos (como subsídios a fontes incentivadas, universalização e cotas de combustíveis) continuam existindo. Com a saída de grandes consumidores da base rateada, o rateio recai sobre os agentes restantes: indústrias de menor porte, comércio e residências.
Especialistas do setor alertam que a expansão da autoprodução em larga escala, sem reforma tarifária paralela, acelera o aumento da tarifa para o consumidor cativo. A Hydro não comentou o processo, mas o movimento segue a lógica econômica racional para o agente individual, ainda que pressione o coletivo.
O que observar nos próximos passos
O desfecho da concorrência e a assinatura do PPA com a Hydro Rein serão o termômetro para novos projetos de autoprodução industrial no Nordeste. Dois pontos merecem monitoramento contínuo:
- Cronograma físico: a entrada em operação do parque em 2029 exige licenciamento, conexão e construção em janela apertada;
- Regulação setorial: eventuais mudanças nas regras de autoprodução ou rateio de encargos (em discussão no Congresso e na Aneel) podem alterar a atratividade do modelo retroativamente.
Para o investidor e o gestor de energia, o caso Hydro/Alunorte funciona como estudo de caso real: a transição energética da indústria pesada cria oportunidades de geração, mas transfere riscos regulatórios e tarifários para a ponta da cadeia. Acompanhar a evolução da base de consumidores cativos é, hoje, tão estratégico quanto acompanhar o preço da energia no mercado livre.
