A Globo acabou de conquistar o MIPCOM Recognition for SDG Impact, prêmio concedido em parceria com a ONU durante o principal evento global do audiovisual, em Cannes. O reconhecimento coloca a empresa no centro de uma transformação que vai muito além de troféus: prova que sustentabilidade e audiência podem caminhar juntas — e gerar valor real.
Manuel Belmar, CFO e líder da agenda ESG da companhia, subiu ao palco para receber a honraria. Mas o que exatamente fez a organização das Nações Unidas olhar para uma emissora brasileira como referência mundial?
O que o prêmio realmente mede
A premiação não avalia apenas “boas intenções”. O critério central é impacto mensurável sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A parceria entre MIPCOM e ONU completa oito anos e já reúne mais de 450 empresas de mídia em 160 países signatárias do Pacto de Mídia pelos ODS.
No caso da Globo, o comitê destacou dois vetores:
- Conteúdo: capacidade de mobilizar debates sociais e ambientais em escala nacional
- Operações: metas ambientais cumpridas antes do prazo e práticas sustentáveis na produção
Metas batidas quatro anos antes do previsto
O dado mais concreto chama atenção: a empresa atingiu 100% de energia renovável e zero envio de resíduos a aterros sanitários em 2024 — a meta original era 2028. No setor audiovisual, onde o consumo energético de estúdios e locações costuma ser alto, a antecipação sinaliza que a gestão de recursos deixou de ser discurso para virar rotina operacional.
Dois instrumentos sustentam esse resultado:
- Guia de Produções Verdes: protocolo interno que orienta equipes a reduzir pegada de carbono em sets de filmagem
- Ecovision: parceria com a Panvision para expandir práticas sustentáveis ao mercado latino-americano
Quando a ficção muda a realidade: o efeito “Vale Tudo”
O prêmio da ONU olha também para o poder de agenda do conteúdo. Dois exemplos recentes da novela Vale Tudo mostram como uma cena pode disparar ação concreta:
- Guarda e pensão alimentícia: cena com a personagem Lucimar usando app da Defensoria Pública do RJ gerou alta de 300% nas buscas pelo aplicativo e 70% mais agendamentos pela plataforma
- Dependência de álcool: trama da personagem Heleninha Roitman provocou aumento de 150% nas buscas pelos canais oficiais de Alcoólicos Anônimos
Esses números não são anecdóticos. Eles demonstram efeito de rede: a emissora usa sua audiência massiva para conectar o público a serviços públicos e redes de apoio que já existem, mas muitas vezes são desconhecidos.
ESG transversal: o que muda na gestão
Paulo Marinho, diretor-presidente da Globo, resumiu a estratégia em uma frase: “ESG não é uma área, mas uma atuação transversal a todo o negócio”. Na prática, isso significa que metas de diversidade, governança e clima estão embutidas no planejamento de produto, na negociação de contratos e na alocação de capital — não em relatórios anuais isolados.
Belmar, que acumula a cadeira de finanças com a liderança da agenda, personifica essa integração. O sinal ao mercado: sustentabilidade é variável de valuation, não custo extra.
O que observar daqui para frente
O reconhecimento em Cannes coloca a Globo sob holofote internacional num momento em que investidores globais exigem métricas ESG auditáveis também de empresas de mídia. Três pontos merecem acompanhamento nos próximos trimestres:
- Expansão do Guia de Produções Verdes para coproduções internacionais
- Mensuração padronizada do impacto social do conteúdo (além de casos isolados)
- Como a Ecovision escalará práticas para players menores da América Latina
Para quem acompanha o setor, o recado é claro: a fronteira entre “fazer o bem” e “fazer negócio” deixou de existir. O prêmio da ONU em Cannes não encerra uma etapa — ele estabelece o novo patamar de cobrança.
