O Brasil atraiu US$ 2,415 bilhões líquidos na semana seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais. O volume, divulgado pelo Banco Central, reverteu a pressão sobre o câmbio e impulsionou a B3 a um dos melhores meses do ano para capital externo. A composição desse movimento, no entanto, revela detalhes que o investidor precisa monitorar de perto.
O choque de liquidez na semana pós-urna
Entre 5 e 9 de outubro, o fluxo cambial totalizou entrada líquida de US$ 3,214 bilhões no acumulado do mês até o dia 9. Apenas na janela de cinco dias úteis, o saldo positivo superou US$ 2,4 bilhões, segundo dados preliminares do câmbio contratado.
O resultado imediato foi a valorização do real frente ao dólar e um rali na Bolsa brasileira. A percepção de risco país recuou forte, atraindo capital de curto prazo para ativos locais.
De onde veio e para onde foi o dinheiro
O canal financeiro — que reúne investimentos em carteira, diretos, remessas de lucro e juros — foi o motor principal. Somente na semana, entraram US$ 4,127 bilhões por essa via.
Em contrapartida, o canal comercial registrou saída de US$ 1,711 bilhão no mesmo período. Exportações e importações, portanto, drenaram recursos, enquanto o financeiro injetou liquidez a taxas atrativas.
- Canal Financeiro (semana): +US$ 4,127 bi
- Canal Comercial (semana): -US$ 1,711 bi
- Saldo Líquido (semana): +US$ 2,415 bi
Estrangeiros voltam a comprar Brasil na B3
O dia 5 de outubro concentrou a força do movimento. Investidores não residentes aportaram R$ 53,5 bilhões na Bolsa em uma única sessão, volume expressivo mesmo para padrões históricos recentes.
Com isso, outubro saltou para a terceira posição no ranking mensal de ingresso externo na B3 em 2022, ficando atrás apenas de janeiro e fevereiro. O apetite por ações e títulos públicos de renda fixa explicou a queda acentuada da moeda americana nos dias seguintes.
O acumulado do ano mantém sinal positivo
Olhando para a janela maior, de janeiro até 9 de outubro, o fluxo cambial total acumula entrada de US$ 13,916 bilhões. O número sinaliza que, apesar da volatilidade política, o país segue captando recursos externos de forma consistente.
Vale ressaltar: as estatísticas são preliminares e sujeitas a revisão. O BC consolida os dados do câmbio contratado com defasagem, o que pode alterar margens nas próximas divulgações.
O que observar nas próximas semanas
O cenário eleitoral segue como vetor principal. A transição para o segundo turno deve ditar o ritmo do canal financeiro, sensível a pesquisas e discursos de política fiscal. Já o comercial depende da balança comercial e do preço das commodities.
Para o gestor de caixa ou o exportador, a lição prática é clara: a liquidez abundante tende a comprimir o prêmio de risco no curto prazo, mas a sustentação do câmbio abaixo de R$ 5,20 dependerá da continuidade do fluxo de portfólio — e não apenas de eventos pontuais.
