Economia

O segredo do boom das motos: melhor setembro desde 2011 e projeção recorde

Fila de motocicletas zero-quilômetro na linha de produção do Polo Industrial de Manaus
Produção de motos atinge melhor setembro em 15 anos com 186,8 mil unidades fabricadas

A indústria de motocicletas fechou setembro com 186.758 unidades produzidas, alta de 10,4% sobre 2025 e o melhor resultado para o mês em 15 anos. O dado surpreende porque as vendas ao consumidor final recuaram 0,4% no mesmo período, sinalizando um descompasso momentâneo entre fábrica e rua.

O balanço da Abraciclo, divulgado nesta terça-feira (13), revela que o Polo Industrial de Manaus acumula 1,645 milhão de unidades no ano — o maior volume janeiro-setembro desde 2008. Mas o verdadeiro sinal de alerta para o mercado veio na revisão das metas anuais.

Por que a fábrica acelera se o varejo freia?

A queda de 8,5% na produção frente a agosto é sazonal, típica do calendário de férias coletivas. Já a retração nas vendas (0,4% ano a ano e 0,1% mês a mês) reflete um cenário de crédito mais seletivo e juros altos, que impactam o financiamento — principal porta de entrada para a moto zero-quilômetro.

Em contrapartida, o emplacamento acumulado salta 10,5%, garantindo recorde histórico no período. Ou seja: a demanda estrutural segue forte, mas o ritmo mensal oscila com o custo do dinheiro.

Exportações voláteis, mas anuais em alta

O comércio exterior mostrou sinais mistos em setembro. Houve queda de 8,2% na comparação anual, porém alta de 12,5% sobre agosto, totalizando 4.826 unidades. No ano, o saldo é robusto: expansão de 23,7%, puxada pela recuperação de mercados na América Latina e África.

As novas metas que o mercado precisa precificar

Diante do desempenho consistente, a entidade elevou o guidão para 2026. Confira o que mudou nas projeções oficiais:

  • Produção: 2,1 milhões de unidades (+6% vs 2025); meta anterior era 2 milhões.
  • Vendas internas: 2,35 milhões de emplacamentos (+6,9%).
  • Exportações: 48 mil unidades (+11,3%).

Para Marcos Bento, presidente da Abraciclo, o momento favorável decorre de lançamentos recentes e da consolidação da motocicleta como ferramenta de trabalho e mobilidade de baixo custo. A leitura do setor é que a renda gerada por motofrete e deslocamento próprio sustenta a demanda mesmo com juros elevados.

O que observar daqui para frente

O fechamento do ano dependerá de duas variáveis sensíveis: a trajetória da Selic e a liberação de linhas de crédito direcionadas (CDC e BNDES). Se o custo de financiamento cair no quarto trimestre, o varejo pode converter o estoque atual em emplacamentos reais, validando a meta de 2,35 milhões. Caso contrário, a indústria arrisca iniciar 2027 com pátios cheios e necessidade de ajustar a produção para baixo.

Investidores e gestores de frota devem monitorar os números de financiamento liberado pelo Banco Central nas próximas semanas — eles antecedem o emplacamento em 30 a 45 dias e funcionam como termômetro mais preciso que a produção bruta.