O Ministério de Minas e Energia colocou em consulta pública o Plano Decenal de Expansão de Energia 2036. A projeção para a geração distribuída salta de 50,3 GW no fim de 2026 para 91,7 GW em 2036. O problema? Esse número já nasce velho.
O crescimento médio previsto é de 4 GW por ano. Para efeito de comparação, só em 2025 o Brasil instalou o dobro disso. Se o histórico servir de bússola, a meta de uma década será batida em metade do tempo.
O erro que se repete há anos
Não é a primeira vez que o planejamento subestima a realidade. O PDE 2029 projetava 11,4 GW para 2029; o país atingiu a marca em 2022. O PDE 2031 estimava 37 GW para 2031; a barreira caiu no início de 2025.
Essa sistemática subestimação não é um detalhe burocrático. As redes de distribuição são dimensionadas com base nesses números. Quando a realidade ultrapassa o papel, a conta chega na forma de recusas de conexão.
O gargalo que travou a porta da frente
Distribuidoras já barram novos pedidos alegando inversão de fluxo de potência. Em setembro, o regulador propôs permitir que as empresas limitem a injeção de até 33 GW de minigeração.
O resultado prático: o operador do sistema de distribuição (DSO) está chegando pela porta dos fundos. Ele surge como gestor de cortes, não como maestro da orquestra.
- Visibilidade cega: O ONS opera o sistema de transmissão em tempo real. Na distribuição, a visão acaba na subestação.
- Geração fantasma: Estima-se entre 12 e 15 GW de geração não registrada “atrás do medidor”.
- Recursos ociosos: Baterias, painéis e veículos elétricos multiplicam-se sem coordenação central.
Maestro não toca instrumento: rege a partitura
Eficiência não nasce de colocar mais músicos no palco. Nasce do desenho do sistema. A orquestração exige digitalização real: medidores inteligentes funcionando como sensores, digital twins, automação e IA coordenando o que é humanamente impossível gerir unidade a unidade.
Para a distribuidora, o papel muda: coordenar recursos de terceiros com regras e preços claros. Não controlá-los. Não competir com eles.
O laboratório que já saiu do PowerPoint
A transição começou na prática. O FlexLab, da Energisa, roda 7 pilotos com 11 planos de trabalho até 2029. Em Palmas (TO), uma usina virtual coordena geração solar descentralizada e baterias desde 2024.
O dado concreto até agora mostra valor privado: clientes comerciais com baterias atrás do medidor reduziram a conta entre 9% e 19%. Mas esses ganhos dependem do desenho tarifário atual.
A tese transformadora — contratar flexibilidade no local e hora certos em vez de construir mais rede — começa a ser testada agora. Chama-se non-wires alternatives.
O que falta para escalar
Inovação só vira escala quando o aprendizado vira regra econômica. Falta reconhecer o valor da flexibilidade para a rede, e não apenas para o cliente. E faltam evidências abertas e verificáveis para embasar essa precificação.
A transição energética não é só trocar a matriz. É reescrever a partitura econômica que diga a cada agente quando tocar, quanto vale sua contribuição e quem paga a conta. O DSO virá de qualquer jeito. Cabe ao setor decidir se abre alas para o maestro ou o deixa entrar pelos fundos como carcereiro.
O que observar daqui para frente
Fique atento à evolução da consulta pública do PDE 2036 e à regulamentação do DSO. Dois movimentos definem o jogo: a velocidade da digitalização das distribuidoras (smart meters e automação) e a criação de mercados de flexibilidade locacional. Quem antecipar a leitura dessa nova partitura captura valor; quem esperar o plano oficial chegar ao fim da validade chega atrasado.
