Desde que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia injetou uma aceleração de 30% nas exportações brasileiras para o bloco europeu. O número foi confirmado pelo ministro Márcio Elias Rosa, do MDIC, mas esconde uma dinâmica que vai muito além do agronegócio.
O comércio bilateral já soma mais de US$ 6 bilhões em crescimento no período. A pergunta que fica: até onde esse movimento pode ir sem esbarrar nas cotas de produtos sensíveis?
O que mudou na prática desde maio
O acordo prevê eliminação de tarifas para 77% dos produtos agropecuários que a UE importa do Mercosul. A transição não é instantânea: prazos de quatro a dez anos definem a curva de redução, dependendo do item.
Já operam com taxa zero:
- Frutas, sucos e óleos vegetais
- Peixes e crustáceos
- Café solúvel e moído (o grão já entrava isento)
Carne bovina, frango e suína seguem outro regime. São classificados como “sensíveis” pelos europeus e têm redução condicionada a cotas de exportação. O gargalo logístico e burocrático para acessar essas cotas ainda é um desafio real para exportadores médios.
O efeito borboleta nos demais mercados
O ministro destacou que o avanço não se restringe ao bloco europeu. O comércio exterior brasileiro como um todo cresceu 10,5% na média, com recordes na corrente de comércio “com praticamente todos os destinos”.
Em 2026, as exportações totais já acumulam alta de 10,4%. Parte desse desempenho reflete a sinalização de previsibilidade que o acordo trouxe — investidores e compradores internacionais veem o Brasil com menos risco regulatório.
Onde está o risco que ninguém comenta
Enquanto a Europa abre portas, o cenário global segue instável. O próprio ministro classificou o ambiente internacional como “desafiador”, citando barreiras tarifárias e não tarifárias.
Um dado chama atenção: a Câmara Americana de Comércio para o Brasil estima que US$ 15 bilhões em exportações podem ser afetados caso uma tarifa de 25% seja aplicada pelos Estados Unidos. O governo mantém diálogo com Washington, mas não há garantias de curto prazo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos trimestres: a velocidade de preenchimento das cotas de carnes na UE, a capacidade do governo de abrir novos mercados (já são 700 desde 2023) e a evolução da disputa comercial com os EUA.
Para o empresariado, o recado prático é: diversifique a pauta de exportação agora. O acordo com a Europa é uma janela, não um destino final. Quem depender apenas de commodities agrícolas pode ficar exposto quando as cotas fecharem ou quando barreiras externas apertarem.
