O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) manteve inalteradas as projeções para as safras brasileiras de soja e milho nos ciclos 2025/26 e 2026/27, divulgadas nesta sexta-feira (9). A estimativa para a soja 2026/27 permanece em 186 milhões de toneladas — um recorde histórico —, enquanto o milho projeta queda entre as duas safras. O mercado agora volta os olhos para o clima no plantio que se inicia.
O novo recorde da soja já tem data
Se confirmado, o volume de 186 milhões de toneladas na safra 2026/27 representará um salto de cerca de 3% frente às 180,5 milhões previstas para 2025/26. O número sinaliza aposta contínua em ganhos de produtividade e expansão de área, mesmo com margens mais apertadas para o produtor.
O relatório não trouxe revisões de área, o que transfere para o clima a responsabilidade de validar ou derrubar esse teto histórico nas próximas semanas.
Milho perde 2 milhões de toneladas entre ciclos
Diferente da oleaginosa, o milho apresenta trajetória de leve retração. A projeção para 2025/26 ficou em 141 milhões de toneladas, caindo para 139 milhões em 2026/27. A redução reflete a expectativa de menor área plantada na segunda safra, pressionada pela janela mais curta após a colheita da soja e custos de insumos ainda elevados.
Essa queda, ainda que modesta, acende alerta para o abastecimento interno e para os contratos de exportação já firmados para o segundo semestre de 2026.
Plantio começa sob sombra de La Niña
O relatório chega exatamente quando as máquinas entram no campo nas principais regiões produtoras do Centro-Oeste e Sul. O cenário climático é a variável que pode rasgar as planilhas do USDA nas próximas atualizações.
- Chuvas irregulares no Matopiba atrasam o início da semeadura.
- Risco de veranico em janeiro ameaça o enchimento de grãos da soja precoce.
- Janela ideal para o milho safrinha se estreita se a soja colher tarde.
Historicamente, o mercado precifica o “clima perfeito” nos relatórios de outubro. A realidade costuma cobrar a fatura entre dezembro e fevereiro.
O que o mercado vai vigiar daqui para frente
A manutenção dos números pelo USDA funciona como uma âncora de curto prazo para Chicago e para os prêmios nos portos brasileiros. Porém, três gatilhos podem forçar revisões já no próximo boletim mensal:
- Confirmação da intensidade da La Niña no verão sul-americano.
- Ritmo real de venda antecipada pelo produtor brasileiro (ainda lento em 2025/26).
- Demanda chinesa por soja no primeiro trimestre de 2027.
O que observar nas próximas semanas
Para o tomador de decisão, o recado prático é: travem as margens agora nas ferramentas de hedge disponíveis, mas mantenham liquidez para ajustar posições caso o clima desvie do script “normal” embutido nas projeções atuais. O próximo relatório de oferta e demanda mundial (WASDE), em novembro, trará os primeiros dados de campo — e costuma ser onde a teoria encontra a realidade.
