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O segredo por trás da alta de 38% no tomate e o que vem por aí

Tomates vermelhos em caixa de feira com etiqueta de preço alta, representando inflação de 38% no IPCA
Tomate dispara 37,76% em setembro e puxa alta de 0,96% na alimentação no domicílio.

A inflação da comida no domicílio voltou a subir 0,96% em setembro, quebrando três meses de quedas consecutivas, segundo o IPCA divulgado pelo IBGE. O vilão tem nome e sobrenome: tomate, com alta de 37,76% no mês. Mas o que assusta especialistas não é o pico isolado — é o que está por trás dele.

O clima adverso derrubou a oferta de hortifrútis justamente quando o El Niño começa a mostrar as garras. A pergunta que fica: até onde isso vai?

O choque de oferta que ninguém previu tão cedo

Setembro trouxe chuvas intensas e episódios de frio atípico nas principais regiões produtoras. O resultado imediato: colheitas atrasadas, perdas no campo e preços disparando na gôndola. O gerente do IPCA, Fernando Gonçalves, resume: “O tomate, com o clima mais frio, demora mais para amadurecer. As chuvas, para a batata, provocaram problema na colheita.”

Não foi só o tomate. A batata-inglesa subiu 24,07%, a cebola 10,14% e o arroz 4,56%. Juntos, esses itens explicam a virada de tendência após o alívio do meio do ano.

O que os economistas veem — e o IBGE evita cravar

Enquanto o instituto adota cautela e diz não ter “elementos suficientes” para atribuir a alta ao El Niño, analistas de mercado não têm dúvidas. Sergio Vale, da MB Associados, afirma: “Parte dessa inflação já tem a ver com o El Niño, que não chegou ao pico ainda. É um início de preocupação.”

Cláudio Ferraz, da Galapagos Capital, e Fábio Romão, da 4intelligence, convergem: os reflexos já estão na mesa do consumidor. O pico do fenômeno é esperado para o quarto trimestre.

Os cinco itens que mais pesaram no bolso em setembro

  • Tomate: +37,76% (impacto de 0,08 p.p. no IPCA)
  • Batata-inglesa: +24,07% (0,04 p.p.)
  • Cebola: +10,14% (0,02 p.p.)
  • Arroz: +4,56% (0,02 p.p.)
  • Carnes: +0,63% (0,02 p.p.)

Fonte: IBGE

Comer fora também ficou mais caro

A alimentação fora do domicílio acelerou de 0,36% em agosto para 0,48% em setembro. Bares, lanchonetes e restaurantes repassam custos de insumos e mão de obra — e o consumidor sente no fim do mês.

Esse movimento tira o fôlego do orçamento familiar justamente quando a inflação geral volta a preocupar. O IPCA cheio ficou acima do esperado e estourou o teto da meta.

O calendário climático não perdoa

Historicamente, a segunda metade do ano traz desafios sazonais para a agropecuária. Em 2023, o calendário ganhou um ingrediente extra: um El Niño que atinge não só o Brasil, mas cadeias globais de suprimento. O excesso de chuvas no Sul — celeiro de arroz — e a nebulosidade persistente no Sudeste já aparecem nos relatórios de safra.

O técnico do IBGE brincou: “Quem está aqui no Rio sabe: foi um mês em que a gente nem viu o sol. A gente está com carência de vitamina D.” A piada mascara um dado duro: a insolação baixa atrasa ciclos produtivos inteiros.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o ritmo dos próximos meses: a intensidade do El Niño no pico do quarto trimestre, a velocidade de recomposição das lavouras de hortifrúti e a capacidade de importação para suprir lacunas pontuais. Se o clima não der trégua, a pressão sobre alimentos in natura tende a persistir até o início de 2024 — com reflexos diretos na formação de expectativas de inflação e, por tabela, nas decisões de política monetária.

Para quem gere custos, estoques ou carteiras de investimento, o recado é claro: a volatilidade da comida voltou. E ela não avisa quando vai embora.