Cerca de 86% das notas fiscais emitidas por grandes contribuintes já trazem o destaque da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), segundo dado divulgado pela Receita Federal nesta sexta-feira (9). São 3,7 bilhões de documentos adaptados em apenas 30 dias, mas 600 milhões ainda ignoram a regra. O número esconde uma disparidade perigosa entre setores que pode ditar o ritmo da transição até 2027.
O retrato numérico da adaptação
O levantamento, extraído do painel de Registro de Operações de Consumo (ROC), considera notas emitidas até 7 de outubro. Do universo de 1,27 milhão de estabelecimentos obrigados, 855 mil — ou 67% — já informam o tributo em todas ou em parte das emissões.
Quase meio milhão de empresas (489 mil) acertaram 100% dos documentos. Outras 365 mil estão no meio do caminho, com adesão parcial. Ficam fora dessa conta as optantes pelo Simples Nacional, desobrigadas do destaque durante todo o ano de 2026.
Transporte e varejo puxam a fila; indústria fica para trás
O tipo de documento fiscal revela onde a adaptação está mais madura. O setor de transportes lidera com folga, seguido de perto por telecomunicações e varejo. A indústria e o atacado, usuários da NF-e tradicional, apresentam a menor taxa entre os grandes grupos.
- CT-e (Transporte): 87% dos emissores já destacam a CBS (25,2 mil estabelecimentos).
- NFCom (Telecom): 82% de adesão (3 mil emissores).
- NFC-e (Varejo): 81% de adesão (168,6 mil emissores).
- NF-e (Indústria/Atacado): 78% de adesão (515,8 mil emissores).
Os percentuais somam emissores que fazem o destaque em todas as notas e os que o fazem parcialmente. A diferença de quase 10 pontos percentuais entre o topo e a base do ranking sinaliza complexidades distintas na atualização de ERPs e processos fiscais.
O calendário que não aceita negociatas
A CBS nasceu para substituir PIS e Cofins e, junto ao IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), forma a espinha dorsal da nova tributação sobre o consumo. A Constituição fixou datas imutáveis: 2026 é o laboratório; 2027 começa a cobrança real da CBS e o teste do IBS.
Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS caem gradativamente. Em 2033, o IBS assume sozinho. Não há margem para prorrogações administrativas — nem da Receita, nem do Comitê Gestor do IBS.
O que separa o teste da multa em 2027
Estar no “período de adaptação” não isenta de consequências futuras. Quem não ajustou o sistema de emissão, o faturamento ou a conferência de XMLs agora chegará a 2027 com passivo técnico e risco de autuação no primeiro mês de vigência plena.
A Receita e o CGIBS listam três frentes prioritárias para quem ainda tem pendências:
- Validação de software: confirmar se o emissor de nota já contempla os campos da CBS e do futuro IBS;
- Revisão de rotinas: alinhar conferência de alíquotas, crédito e destaque no documento fiscal;
- Monitoramento oficial: acompanhar apenas canais da Receita Federal e do CGIBS para evitar normas desatualizadas.
O que observar daqui para a frente
O próximo marco relevante é a publicação dos regulamentos definitivos da CBS e do IBS, que detalharão alíquotas, regimes específicos e regras de crédito. Empresas que usarem os próximos meses para rodar “paralelos” — emitir a nota oficial e simular a nova apuração em planilha à parte — chegarão a 2027 com margem de segurança. Quem esperar a virada do ano para começar corre o risco de travar o faturamento no dia 1º de janeiro.
