Economia

Veto no Brasil derruba apostas eleitorais em 90%: o que os dados revelam

Gráfico mostra queda de 90% nas apostas eleitorais no Brasil após veto à Polymarket
Volume diário de apostas em eleições brasileiras despencou 89,6% após bloqueio judicial às plataformas de previsão.

O bloqueio às plataformas de mercados de previsão em abril provocou um colapso de 89,6% nas transações diárias sobre eleições brasileiras na Polymarket. O volume total apostado aqui representa míseros 4,5% do registrado na disputa presidencial americana de 2024. A pergunta que fica: até que ponto essas cotações ainda servem de termômetro confiável?

O mecanismo por trás das cotações

Diferente de pesquisas amostrais, esses mercados agregam palpites nos quais pessoas colocam dinheiro real. A lógica é simples: quem está disposto a arriscar capital sinaliza convicção mais forte do que quem apenas responde a um questionário. Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, resume: “a disposição para pagar valida o posicionamento”.

O modelo pressupõe liquidez alta — participantes suficientes comprando e vendendo contratos de vitória para cada candidato. O veto criou uma falha de mercado: brasileiros interessados ficaram de fora, reduzindo a profundidade do livro de ofertas e distorcendo os preços.

O tamanho do buraco nas apostas

Os números expõem a assimetria. Na Polymarket, onde cada operação fica gravada em blockchain, a média diária de transações sobre o pleito brasileiro despencou após a proibição. A Kalshi não abre seus dados de participação por seção, mas admite que a restrição em 53 países — Brasil incluído — prejudica a formação de preços.

Para efeito de comparação:

  • Eleição EUA 2024: volume de referência (100%)
  • Eleição Brasil: 4,5% desse volume
  • Queda pós-veto (Polymarket): 89,6%

Grandes apostas não igualam probabilidades

Um detalhe contraintuitivo chama atenção. O maior posicionamento ativo na Polymarket favorece a reeleição de Lula: US$ 1,01 milhão (R$ 5,26 milhões) aplicados quando a chance do petista estava em 48%. Com a cotação recuando para 41%, o apostador “unknwnfnd” já acumula prejuízo latente de US$ 67 mil (R$ 349,1 mil) se liquidasse agora.

Flávio Bolsonaro lidera as cotações com 59% de chance. Mas o número de “baleias” — apostas acima de US$ 100 mil — conta outra história: Renan Santos, do Missão, com 3% no Datafolha, tem 17 posições desse porte. Lula soma 8; Flávio, 7. Nos mercados de previsão, a probabilidade deriva do preço dos contratos (oferta e demanda), não do volume de grandes jogadores.

O debate acadêmico: ferramenta ou cassino?

Cientistas políticos e estatísticos questionam a validade preditiva sem estudos independentes que a respaldem. Glauco Peres, professor de métodos quantitativos na USP, aponta que as plataformas não comprovaram seu poder de previsão em pesquisas revisadas por pares.

Há evidências mistas. Um paper do NBER (National Bureau of Economic Research) equiparou a precisão desses mercados à de derivativos financeiros e pesquisas de opinião na previsão de juros. Por outro lado, Robert Bartlett (Stanford) e Maureen O’Hara (Cornell) identificaram viés sistemático em eventos corporativos e de celebridades: formadores de mercado lucram mais que o restante — indício de insider trading — e há tendência a superestimar contratos positivos (apostas de que algo vai acontecer).

O que observar daqui para frente

As empresas usam a distorção brasileira como argumento para pressionar pela volta ao país. Alegam que acertaram a vitória de Trump em 2024 e que seus dados são “qualitativamente superiores” às pesquisas tradicionais, que enfrentam crises de amostragem e baixas taxas de resposta.

Enquanto o veto vigorar, duas variáveis merecem monitoramento: a eventual migração de apostadores brasileiros para VPNs e contas no exterior — o que injetaria liquidez, mas de forma opaca — e a entrada de novos players regulados no país, caso o marco legal das apostas evolua para abranger mercados de previsão. O termômetro está quebrado; a dúvida é se será consertado ou substituído.