O diretor-executivo da SETE, empresa que gere a Torre Eiffel, Patrick Branco Ruivo, anunciou saída até o fim de 2026 após 12 anos no posto. A decisão vem na esteira de uma greve histórica que fechou o monumento por um dia inteiro em setembro. O que leva um gestor a cair depois de mais de uma década no comando do ativo turístico mais rentável da França?
O gatilho: uma visita e um pedido inaceitável
No início de setembro, um grupo ligado ao movimento hindu ultraconservador BAPS Swaminarayan Sanstha visitou a torre. A comitiva exigiu que nenhuma mulher estivesse visível durante o percurso — nem funcionárias, nem visitantes.
A gerência acatou. Antes da chegada dos visitantes, servidoras foram retiradas de seus postos e realocadas para salas nos fundos. A ordem partiu de um funcionário de nível operacional, mas a cadeia de comando não interveio.
Greve para a máquina de €156 milhões
A resposta foi imediata. As funcionárias atingidas cruzaram os braços e ganharam a adesão do restante do quadro. Em 7 de setembro, a Torre Eiffel não abriu as portas — algo raro para um ativo que recebe 6,7 milhões de pessoas por ano e fatura 156 milhões de euros (cerca de R$ 850 milhões na cotação atual).
O prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, determinou duas investigações paralelas. A conclusão da auditoria interna da SETE foi dura: “série de falhas e deficiências na organização das visitas protocolares” que resultaram na “exclusão inadmissível das funcionárias”.
O que a investigação revelou sobre a gestão
O relatório não apontou apenas um erro isolado. Identificou falhas sistêmicas:
- Ausência de protocolo claro para visitas de grupos com demandas discriminatórias
- Falha na cadeia de comando: nenhum superior interveio na hora da decisão
- Treinamento insuficiente sobre direitos trabalhistas e igualdade de gênero
- Gestão de risco reputacional falha em um ativo de visibilidade global
Números que explicam por que isso importa para investidores
A Torre Eiffel não é apenas um símbolo — é uma empresa pública de alta performance. A estrutura acionária da SETE concentra 99% nas mãos da Prefeitura de Paris e 1% na Região Metropolitana. Isso significa que decisões de gestão têm peso político direto.
Com 402 funcionários e margens saudáveis, o monumento opera como um caso de escola de place branding monetizado. A instabilidade no topo pode afetar:
- Renovação de contratos de concessão e patrocínio
- Planejamento de obras de modernização (orçadas em dezenas de milhões)
- Relações sindicais — a greve mostrou poder de paralisação real
O que observar nos próximos meses
A transição deve ser concluída até dezembro de 2026. Até lá, três variáveis merecem atenção de quem acompanha ativos turísticos estratégicos: o perfil do sucessor (técnico ou político), a implementação de protocolos anti-discriminação vinculantes e a reação do mercado de seguros e patrocinadores à exposição reputacional. O primeiro teste virá na alta temporada de 2025 — se a operação fluir sem sobressaltos, o mercado lerá como continuidade. Qualquer ruído, e a narrativa de “gestão fragilizada” ganha força.
