Justiça

O segredo por trás do “match” eleitoral no Domingão: MPF investiga Huck e Globo

Luciano Huck no Domingão apresenta plataforma de match eleitoral investigada pelo MPF
Huck exibe ferramenta de "match" eleitoral no Domingão, alvo de inquérito do MPF por possível propaganda irregular.

O Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul abriu inquérito para apurar se a exibição de uma plataforma de “match” entre eleitores e candidatos no Domingão com Huck configurou propaganda eleitoral irregular. A denúncia partiu da deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e coloca em xeque a neutralidade de uma ferramenta apresentada como apartidária.

O episódio ocorreu no domingo (27), a poucos dias do primeiro turno. Mas o que parecia uma ação de utilidade pública despertou suspeitas que vão muito além do horário nobre.

Por que a denúncia chegou ao MPF Eleitoral

A parlamentar acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral após receber relatos de eleitores que testaram o TemMeuVoto. O site, mantido por um consórcio de 14 organizações — entre elas RenovaBR e Transparência Internacional Brasil —, propõe um questionário de oito perguntas para calcular afinidade ideológica com candidatos a deputado.

O problema: usuários que se declararam progressistas em todas as respostas afirmam ter recebido indicações majoritárias de candidatos de direita ou extrema direita. A discrepância entre o perfil declarado e o resultado gerado é o coração da investigação.

O que a plataforma promete e o que usuários relatam

Durante o programa, Luciano Huck descreveu a ferramenta como “gratuita, apartidária e capaz de dar um match entre eleitor e candidato”. A metodologia pública prevê comparação sobre oito temas, com peso definido pelo próprio eleitor. Respostas diretas dos candidatos prevalecem sobre estimativas baseadas em votações parlamentares.

  • Data da exibição: 27 de agosto (domingo)
  • Perguntas do questionário: 8 temas
  • Organizações por trás do site: 14 entidades
  • Prazo até a eleição: menos de duas semanas

Relatos em redes sociais, no entanto, descrevem um padrão inverso: eleitores de esquerda recebendo “matches” com bolsonaristas declarados. A plataforma nega viés e afirma que o resultado expressa apenas afinidade nos temas consultados, não recomendação de voto.

Pedido de retirada do ar no TRE-SP

Em frente paralela, o vereador Nabil Bonduki (PT-SP), candidato a deputado federal, protocolou pedido no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo para tirar o site do ar. O argumento: a menção no programa da Globo equivaleria a publicidade eleitoral vedada em atrações de entretenimento.

“Uma ferramenta com potencial para influenciar a escolha de milhares de pessoas precisa ter transparência, critérios verificáveis e tratamento isonômico entre todas as candidaturas”, declarou Bonduki. O TRE-SP ainda analisa a solicitação.

O que a Globo e Huck dizem — e o que não disseram

Procurados na terça-feira (29), a emissora informou não ter sido notificada oficialmente. Huck não se manifestou até o fechamento desta reportagem. A ausência de posicionamento público do apresentador — conhecido por pautas de engajamento cívico — amplia a especulação sobre os bastidores da parceria.

Mas o efeito mais relevante aparece na confiança do eleitorado em ferramentas de orientação de voto.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem acompanhamento nas próximas 48 horas: a posição do MPF-RS sobre a abertura de inquérito civil ou eleitoral; a decisão do TRE-SP sobre a liminar de suspensão da plataforma; e a eventual divulgação da base de dados e pesos algorítmicos do TemMeuVoto para auditoria independente.

Para o eleitor, a lição prática é clara: nenhuma ferramenta automatizada substitui a checagem direta do histórico parlamentar, das propostas oficiais e das fontes primárias. O “match” pode ser um ponto de partida — mas a decisão final, e a responsabilidade por ela, seguem sendo suas.