Um site de orientação eleitoral recomendado em horário nobre alterou seu algoritmo de ordenação às pressas após denúncias formais ao Ministério Público. A plataforma, que prometia neutralidade, exibía candidatos de direita no topo mesmo para eleitores com perfil à esquerda.
A mudança ocorreu menos de 48 horas após a exibição no programa de Luciano Huck. O que era descrito como “sorteio” nas notas técnicas virou prioridade por afinidade real. Mas a polêmica expõe um risco maior: a opacidade por trás de ferramentas que moldam o voto.
O estopim: match invertido na tela da TV
No domingo (27), a menção no “Domingão” levou milhares de usuários ao TemMeuVoto. A mecânica é simples: oito perguntas, respostas de “concordo” ou “discordo”, e um ranking de compatibilidade com candidatos que preencheram o mesmo questionário.
O problema apareceu nos prints compartilhados em massa nas redes. Eleitores alinhados à esquerda viam, nas primeiras posições, nomes do PL e do Novo. Candidatos com 90% de afinidade surgiam apenas após rolar a página.
O “sorteio” que ninguém viu nas letras miúdas
A explicação técnica original estava no rodapé: a ordenação inicial não seguia a pontuação de match. Era um “sorteio” entre os candidatos que haviam respondido. Na prática, como a base inicial era dominada por chapas de direita, o aleatório beneficiava exatamente esse espectro.
Foi o suficiente para acionar o Ministério Público. Fernanda Melchionna (PSOL) e Nabil Bonduki (PT) protocolaram notícias de fato em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A pressão jurídica acelerou a correção.
Quem está por trás da plataforma?
O projeto é mantido por uma coalizão de 14 entidades de alinhamento liberal. Em nota, a organização se diz apartidária, independente e plural, sustentada por organizações com “trajetórias e visões diversas”.
A defesa central: a metodologia é pública e os critérios, iguais para todos. “O resultado expressa afinidade nos temas consultados, não uma recomendação de voto”, diz o comunicado. A plataforma não comentou diretamente por que a exibição padrão não era a por maior afinidade desde o início.
O que mudou na prática para o usuário
- Antes: Lista embaralhada (“sorteio”) entre respondentes; match real exigia rolagem.
- Depois: Ordenação decrescente por porcentagem de compatibilidade.
- Base de dados: Crescimento acelerado de novos candidatos preenchendo o formulário desde domingo.
A expectativa da equipe é que o volume de perfis continue subindo até o dia da eleição, o que, em tese, dilui o viés da amostra inicial.
O alerta para o ecossistema de civic tech
O episódio escancara a fragilidade de ferramentas que mediam decisão política sem auditoria externa contínua. Um detalhe no rodapé — classificado como “sorteio” — funcionou como viés algorítmico não intencional (ou não) com alcance de horário nobre.
Para investidores e gestores de produtos digitais, o caso vira study case: default settings definem resultados. A transparência reativa, só após denúncia, custa credibilidade e atrai risco regulatório.
O que observar nas próximas semanas
Acompanhe se a plataforma publicará logs de versão do algoritmo e relatórios de diversidade ideológica da base de candidatos. A promessa de “autonomia e senso crítico” do eleitor depende, agora, de provar que a caixa-preta foi aberta de vez — e não apenas remendada sob pressão.
