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O que está em jogo na corte que pode derrubar as tarifas de Trump sobre trabalho forçado

Fachada do Tribunal de Comércio Internacional dos EUA em Washington DC
Tribunal de Comércio Internacional dos EUA onde se julga a legalidade das tarifas de Trump sobre trabalho forçado.

O Tribunal de Comércio Internacional dos EUA começa a julgar nesta quarta-feira (30) a legalidade das tarifas de 10% a 12,5% que o governo Trump impôs a 60 países sob a justificativa de combater trabalho forçado. A decisão pode redefinir os limites do poder presidencial sobre comércio exterior.

Quatro pequenas empresas e 25 estados governados por democratas argumentam que a Casa Branca usou a alegação de trabalho forçado como pretexto para restabelecer a autoridade tarifária ampla que a Suprema Corte já havia derrubado em fevereiro. O desfecho afeta diretamente quem importa da China, da União Europeia e de outros 58 parceiros.

Por que esta audiência é diferente das anteriores

O painel é composto por três juízes nomeados por presidentes de partidos opostos: um por Trump, outro por Obama e o terceiro por Biden. Não há previsão de decisão imediata — o colegiado deve emitir parecer escrito nas semanas seguintes.

As tarifas contestadas entraram em vigor no final de julho e cobrem mais de 99% das mercadorias importadas pelos Estados Unidos. Segundo os autores da ação, a legislação invocada exige investigações específicas por país sobre práticas desleais, o que não teria ocorrido.

O caminho até aqui: três tentativas em seis meses

A disputa revela uma escalada de instrumentos legais:

  • Fevereiro: Suprema Corte bloqueia tarifas baseadas em poderes de emergência econômica (IEEPA).
  • Março–junho: Tarifa global temporária de 10% via lei comercial alternativa (Seção 122).
  • Julho: Novas tarifas de 10% a 12,5% invocando a Seção 307 da Lei Tarifária de 1930 — voltada a trabalho forçado.

Para os demandantes, a troca de base legal não muda o vício de origem: seria uma tentativa de contornar o judiciário mantendo o mesmo alcance universal.

O que o governo alega em sua defesa

Em documentos apresentados à corte, a administração afirma ter conduzido investigações individuais para cada um dos 60 parceiros comerciais e concluído que as tarifas são justificadas. O teor dessas investigações, no entanto, não foi tornado público na íntegra.

O argumento central é que a Seção 307 confere discricionariedade ao presidente para agir quando um país falha em coibir a entrada de bens produzidos com trabalho forçado — sem exigir o mesmo nível de prova exigido em casos de dumping ou subsídios.

Impacto direto para importadores e cadeias de suprimento

Enquanto o processo tramita, as tarifas seguem em vigor. Empresas que dependem de insumos da China ou da UE já recolhem o adicional na alfândega, o que pressiona margens e decisões de sourcing. Pequenos importadores, sem estrutura para pleitear isenções ou redirecionar fornecedores, são os mais expostos.

Um detalhe crítico: a ação não pede suspensão liminar das alíquotas. Se o tribunal julgar inconstitucional a medida, a devolução dos valores pagos dependerá de procedimento separado — e pode levar anos.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis definirão o ritmo dos desdobramentos:

  • Se o painel conceder ou negar medida cautelar para suspender a cobrança durante o julgamento.
  • O grau de detalhamento da decisão escrita — se atacará apenas a aplicação a certos países ou invalidará a base legal como um todo.
  • Eventual recurso ao Tribunal de Apelações do Circuito Federal, instância superior para matéria comercial.

Para quem toma decisões de compra, logística ou investimento, o sinal mais claro virá da fundamentação do voto majoritário: se o tribunal exigir investigações individualizadas por país, a porta se abre para contestações setoriais. Se validar a discricionariedade ampla, o caminho fica livre para novas rodadas tarifárias sob o mesmo estatuto.