O IGP-M saltou 1,57% em setembro, apagando a deflação de 0,22% registrada em agosto e pegando analistas de surpresa. O índice, referência para reajuste de aluguéis e contratos de infraestrutura, acumula agora 3,34% em 12 meses. A virada brusca muda o cenário de custos para empresas e inquilinos já no próximo ciclo de correções.
O motor da virada: o ataque do atacado
A explicação para o salto está no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que mede o atacado e responde por 60% do IGP-M. Em agosto, o IPA havia caído 0,34%; em setembro, disparou 2,08%. Essa oscilação de mais de 2,4 pontos percentuais em 30 dias reflete a pressão de commodities e câmbio sobre a indústria.
Itens como minério de ferro, soja e derivados de petróleo puxaram a alta. Para o empresário, o sinal é claro: a margem de negociação com fornecedores encolheu e o repasse para preços finais torna-se quase inevitável nos próximos meses.
Varejo e construção: ritmos distintos
Enquanto o atacado fervia, o varejo mostrou sinais moderados. O IPC, que mede a cesta do consumidor e tem peso de 30%, subiu 0,50% após cair 0,41% no mês anterior. A aceleração veio sobretudo de:
- Alimentação: pressionada por carnes e hortifrúti;
- Transportes: reflexo do reajuste de combustíveis;
- Habitação: gás encanado e taxa de água/esgoto.
Já o INCC (custo da construção), com peso de 10%, perdeu força: avançou apenas 0,25%, metade do ritmo de agosto. O alívio vem de materiais metálicos e equipamentos, que recuaram após altas consecutivas.
O efeito cascata nos contratos
Com a alta de setembro, o IGP-M fecha o terceiro trimestre em 3,45% no ano. Para contratos anuais com aniversário entre outubro e dezembro, a correção já está contratada nesse patamar. Imobiliárias e administradoras de shoppings devem repassar o índice cheio aos locatários, o que eleva o custo de ocupação em um momento de juros ainda restritivos.
No setor de infraestrutura, concessionárias de rodovias, energia e saneamento ajustam tarifas com base no acumulado de 12 meses (3,34%). O impacto chega ao consumidor final via conta de luz e pedágio, pressionando o orçamento familiar e a estrutura de custos logísticos.
O que observar daqui para frente
O mercado já projeta que o IGP-M deve fechar 2026 próximo de 4%, acima da meta de inflação oficial. Três variáveis ditam o ritmo:
- Câmbio: dólar acima de R$ 5,30 transfere pressão imediata ao IPA;
- Commodities: safra americana e demanda chinesa definem preços agrícolas e metálicos;
- Política monetária: Selic alta contém o IPC, mas não impede choques de oferta no atacado.
Para gestores de contratos indexados, a estratégica passa a ser antecipar repasses ou negociar gatilhos de teto (cap) nas próximas renovações. Quem aluga imóvel comercial ou reside em imóvel corrigido pelo IGP-M deve provisionar orçamento extra já para o próximo boleto.
