Trabalhadores do Centro de Distribuição Domiciliária do bairro do Cristo, em João Pessoa, cruzaram os braços na manhã desta terça-feira (29). O motivo não foi salário nem benefícios, mas a escalada de violência contra carteiros durante a entrega de material eleitoral. A paralisação durou apenas algumas horas, mas o recado ecoa além do fim do protesto.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos da Paraíba (Sintect-PB), o estopim foi uma agressão física registrada na segunda-feira (28). Não foi caso isolado: a entidade acumula denúncias de ameaças, insultos e violência contra servidores que apenas cumprem a determinação legal de distribuir correspondência.
O que está por trás das agressões
O diretor-geral do Sintect-PB, Tony Sérgio, esclarece um ponto crucial: a distribuição de mala direta eleitoral é obrigação legal dos Correios, prevista na Lei 6.538/70. Carteiros não escolhem o conteúdo, não filtram mensagens políticas e não têm qualquer ingerência sobre o material que chega às caixas de correio.
Mesmo assim, tornaram-se alvos. A confusão entre o mensageiro e a mensagem tem colocado em risco a integridade física de profissionais que percorrem ruas e becos para garantir um direito democrático: o acesso à informação eleitoral.
Números que o sindicato não divulga, mas o dia a dia revela
Não há estatística oficial consolidada sobre agressões a carteiros em período eleitoral. O que existe são relatos pulverizados em boletins de ocorrência, grupos de WhatsApp da categoria e denúncias ao sindicato. O episódio de Campina Grande, na sexta-feira (25), foi apenas o que ganhou visibilidade.
A assessoria jurídica do Sintect-PB já atua na assistência à vítima. Mas a resposta institucional ainda se limita a notas de repúdio e pedidos de reforço policial pontuais. A paralisação desta terça foi a forma encontrada para forçar uma discussão mais ampla sobre segurança no trabalho.
Como funciona a Mala Direta eleitoral
Para quem não atua no setor, vale a contextualização técnica. O serviço atende:
- Candidatos a cargos eletivos
- Partidos políticos e comitês eleitorais
- Agências de publicidade contratadas para campanhas
É um serviço postal regular, acessível a pessoas físicas e jurídicas, regulamentado há mais de cinco décadas. A logística envolve triagem, roteirização e entrega domiciliar — tudo executado por servidores que, agora, pedem apenas condições mínimas de segurança.
O impacto que vai além da categoria
Quando a entrega de material eleitoral é interrompida — mesmo que por poucas horas —, o prejuízo não se restringe aos Correios. Candidatos perdem prazo de exposição, eleitores deixam de receber informações oficiais e a engrenagem democrática sofre uma fratura silenciosa.
Além disso, a insegurança no trabalho postal tende a gerar afastamentos, licenças médicas e rotatividade. O custo indireto recai sobre a qualidade do serviço prestado à população durante todo o ano, não apenas no período eleitoral.
O que observar daqui para frente
A retomada das atividades não encerra a questão. O sindicato deve protocolar pedido formal de reunião com a superintendência regional dos Correios e com a Secretaria de Segurança Pública do estado. A expectativa é por um plano de ação que inclua escolta em áreas de risco, canal de denúncia ágil e protocolos de retirada de carteiros de situações de perigo iminente.
Para o empresário ou gestor público que acompanha o cenário, o recado é claro: a logística eleitoral depende de elos humanos vulneráveis. Proteger quem entrega a democracia não é favor — é condição para que ela chegue intacta à porta de cada eleitor.
