O presidente Lula admitiu que a dívida pública beirando 80% do PIB “preocupa”, mas descartou pânico ao citar as reservas em dólar como colchão de segurança. A fala foi dada em entrevista à BandNews no domingo (27), mesma semana em que o próprio governo revisou as projeções para cima: o indicador pode tocar 90% do PIB em 2029.
O que não ficou claro é como o Planalto pretende inverter a trajetória sem detalhar cortes ou novas receitas. O mandato deve fechar com expansão de 12 pontos percentuais no endividamento bruto.
O número que assusta o mercado
Segundo as novas estimativas da equipe econômica, a dívida bruta encerra 2024 em 83,7% do PIB. Se as contas federais ficarem no piso inferior da meta fiscal nos próximos anos, a projeção para 2029 supera os 90%.
Para investidores, o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios é o ponto central. A cada 1 ponto percentual a mais na relação dívida/PIB, o custo de rolagem pressiona a curva de juros longos e reduz o espaço fiscal para investimentos produtivos.
Reservas dão fôlego, mas não resolvem o estrutural
O argumento do presidente apoia-se no estoque de reservas internacionais — atualmente acima de US$ 350 bilhões. Esse colchão reduz o risco de calote externo e dá tempo para ajustes graduais.
Porém, a dívida é majoritariamente interna, indexada à Selic e ao IPCA. Reservas em dólar não pagam juros de LTN ou NTN-B. O custo de carregamento segue subindo enquanto a taxa real de juros permanecer elevada.
O que os ministros sinalizam para 2025
Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento) defenderam publicamente a busca de superávit primário efetivo no próximo ano. A meta oficial é de déficit zero, mas o mercado projeta novo rombo na casa de 0,5% a 0,7% do PIB.
- Revisão de gastos obrigatórios: pré-requisito para qualquer superávit real.
- Receitas extraordinárias: dependem de aprovação no Congresso e litígios tributários.
- Arcabouço fiscal: regra de crescimento real de despesa limitada a 2,5% ao ano.
Sem detalhamento de quais despesas serão contidas, a promessa de superávit segue no campo da intenção.
Dois discursos, uma mesma cadeira
Em encontros com empresários, Lula reforça compromisso com responsabilidade fiscal. Nos bastidores do PT, uma ala pressiona por expansão de investimentos públicos via endividamento adicional.
Essa tensão interna explica a ausência de um plano concreto. Qualquer anúncio de corte atinge bases eleitorais; qualquer expansão assusta o mercado e eleva o prêmio de risco.
Cenários para o investidor acompanhar
Três variáveis definirão a trajetória da dívida até 2026:
- Crescimento do PIB real: acima de 2% ao ano alivia o denominador da razão.
- Taxa Selic média: cada 1 pp a mais eleva o custo da dívida em cerca de R$ 40 bilhões anuais.
- Resultado primário efetivo: superávit de 0,5% do PIB estabilizaria a relação; déficit a faz subir.
O que observar nas próximas semanas
O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2025 chega ao Congresso em abril. Ali estarão as metas de resultado primário, limites de despesa e as projeções macroeconômicas que balizam a credibilidade do arcabouço. Antes disso, a divulgação do Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas (março e maio) mostrará se o governo está cumprindo o ritmo de contenção prometido.
Para quem aloca capital no Brasil, a regra é simples: enquanto não houver clareza sobre quais gastos caem ou quais receitas sobem, a dívida a 90% do PIB deixa de ser projeção e vira cenário-base.
