Tecnologia

Internet grátis na eleição: o impacto que a Anatel não calculou

Ilustração de urna eletrônica conectada a smartphone com símbolo de Wi-Fi livre, representando internet grátis nas eleições 2026
Entidades civis contestam Anatel no STF por internet móvel gratuita nas 72h antes da votação de 2026

Doze entidades da sociedade civil acabam de desafiar a Anatel no Supremo Tribunal Federal (STF) com um argumento técnico que pode mudar as regras do jogo digital nas eleições de 2026. O estopim foi a alegação da agência de que liberar o acesso irrestrito à internet móvel nas 72 horas anteriores à votação derrubaria a rede. A resposta das entidades expõe uma lacuna perigosa: a ausência de números concretos por parte do regulador.

O movimento que coloca a Anatel na defensiva

Os grupos — entre eles Sleeping Giants Brasil, Intervozes, Instituto Nupef e a Fenaj — pediram ingresso como amici curiae na ação movida pela CNTE e pelo Partido Verde. O objetivo é forçar a universalização do sinal móvel para quem tem a franquia esgotada, garantindo acesso à imprensa profissional e ferramentas de busca, não apenas a aplicativos de “zero rating” como WhatsApp e Instagram.

No documento protocolado, a crítica é cirúrgica: a Anatel não detalhou quantos usuários estariam sem franquia, qual o volume de tráfego extra gerado, onde ele se concentraria nem quais medidas técnicas mitigariam o risco. Para os especialistas, a agência usou um cenário de caos genérico para evitar a obrigação.

Por que isso atinge o seu bolso e o seu negócio

A desigualdade de acesso não é apenas um problema social; é um risco de mercado. Dados do estudo “Democracia Sem Franquia” revelam a escala do apagão digital:

  • 64,1 milhões de adultos conectados ficam ao menos um dia por mês sem dados;
  • 29,5 milhões passam oito dias ou mais off-line forçadamente;
  • Isso representa cerca de um em cada três brasileiros online.

Quando a parcela mais vulnerável da população depende exclusivamente de redes sociais para se informar, o ambiente fica propício à desinformação segmentada — um veneno para a previsibilidade regulatória e a estabilidade institucional que investidores e empresários monitoram de perto.

O precedente europeu que assusta as big techs

Para embasar o pedido, as entidades citaram a investigação da Comissão Europeia sobre o TikTok nas eleições romenas de 2024. O caso mostrou como algoritmos de plataformas fechadas, acessíveis sem custo de dados, podem amplificar narrativas coordenadas sem transparência. O recado ao STF é claro: liberar apenas o “jardim cercado” das big techs amplia o risco sistêmico, não o reduz.

A decisão parcial de Zanin e o que vem pela frente

Na noite de 28 de setembro, o ministro Cristiano Zanin concedeu uma liminar cirúrgica: operadoras devem liberar o acesso gratuito aos sites da Justiça Eleitoral (TSE e TREs) para quem zerou a franquia, válido 72 horas antes até 24 horas depois de cada turno. É uma vitória tática, mas o mérito — a internet aberta plena — ainda vai a plenário.

O que observar nas próximas semanas

O julgamento final pelo plenário do STF definirá se a obrigação se estende a toda a web ou permanece restrita aos portais oficiais. Para o setor de telecom, a atenção deve focar em dois vetores: a definição técnica de “tráfego adicional” que a Anatel será forçada a apresentar e a possível criação de um fundo de compensação ou obrigação regulatória permanente para períodos eleitorais. Quem opera infraestrutura ou depende de audiência digital deve mapear cenários de custo e compliance a partir do voto do relator.