A Eurofarma cravou a liderança no mercado brasileiro de canetas de semaglutida com os medicamentos Poviztra e Extensior, reunindo uma base de 80 mil médicos prescritores. O feito ganha contornos estratégicos porque a patente do princípio ativo expira em março de 2026, data marcada para a entrada em massa de concorrentes. A pergunta que fica é: como a farmacêutica sustentará essa vantagem quando a barreira legal cair?
Os números recentes mostram fôlego. A rede de prescritores cresceu 56,7% em apenas dois meses, um ritmo agressivo mesmo diante do lançamento de rivais como Ozivy (EMS), Semavy (Cosmed) e Owozy (Ávita Care). A expansão sugere que a empresa está tentando criar uma “barreira de entrada” baseada no hábito médico antes que a concorrência por preço se intensifique.
A parceria que blinda a frente competitiva
A força da Eurofarma não nasce do zero. Existe um acordo comercial selado com a Novo Nordisk, detentora original da patente do Ozempic e Wegovy. A parceria, formalizada em outubro de 2025, prevê que as canetas sejam fabricadas na Dinamarca e comercializadas com exclusividade pela Eurofarma no território nacional.
Essa estrutura garante dois ativos valiosos: a chancela de qualidade do inventor da molécula e uma cadeia de suprimento já validada. Para o prescritor, a transição do Ozempic para o Poviztra ou Extensior torna-se quase imperceptível, reduzindo a fricção na adoção.
Concorrentes já batem à porta com estratégias distintas
Enquanto a líder consolida a base, o mercado não espera 2026. Três players já movimentam as prateleiras com propostas de valor diferentes:
- EMS (Ozivy): Aposta na capilaridade de sua força de vendas massiva para ganhar share rápido.
- Cosmed (Semavy): Foca em nichos de atendimento e canais especializados.
- Ávita Care (Owozy): Busca espaço via modelos de acesso e programas de suporte ao paciente.
A fragmentação inicial tende a beneficiar a Eurofarma no curto prazo, mas a guerra de preços é inevitável assim que a exclusividade da patente expirar.
Anvisa aprova “supercaneta” e muda o tabuleiro
Uma variável nova entrou na equação nesta segunda-feira (28). A Anvisa registrou o Kyinsu, da Novo Nordisk, primeira caneta que combina insulina icodeca e semaglutida em uma única injeção semanal. Aprovado em seis apresentações, o produto atende adultos com diabetes tipo 2 não controlados apenas com basal ou agonistas de GLP-1 isolados.
Embora o Kyinsu seja um produto da parceira dinamarquesa, seu portfólio complementa — e não substitui — a oferta atual da Eurofarma. A tendência é que a combinação fixe o paciente em um esquema terapêutico mais avançado, aumentando o valor do ciclo de vida do tratamento.
O que observar daqui para frente
O cenário até março de 2026 será definido pela capacidade da Eurofarma de converter volume de prescritores em fidelidade real. Três indicadores merecem monitoramento contínuo:
- Taxa de reposição: Percentual de pacientes que renovam a caneta Eurofarma versus migram para genéricos mais baratos.
- Pressão regulatória: Movimentos da CMED sobre teto de preços para a categoria semaglutida.
- Pipeline da parceira: Novas indicações ou formulações da Novo Nordisk que a Eurofarma terá direito de comercializar.
Para investidores e gestores, o recado é claro: a liderança atual é robusta, mas o “fosso” competitivo depende inteiramente da execução comercial nos próximos 18 meses. Quem ditar o ritmo da transição de portfólio quando a patente cair, provavelmente, ditará as regras do jogo na próxima década.
