Negociações formais pela fatia de 15% do grupo italiano devem começar nas próximas semanas, mas a distância entre o preço pedido e a disposição dos gigantes LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica ameaça travar o acordo. O verdadeiro teste, porém, não é financeiro: é provar que a marca vive sem o seu criador.
O fim de uma era de controle absoluto
Por cinco décadas, Giorgio Armani blindou a independência da empresa com pulso firme. Sua morte, em setembro de 2023, aos 91 anos, acionou uma cláusula testamentária surpreendente: os herdeiros têm 18 meses para vender uma participação minoritária inicial de 15%.
O prazo aperta o calendário. Reuniões com os três “pretendentes preferenciais” — LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica — estão marcadas para o fim de setembro ou início de outubro, adiadas em relação ao plano original de junho. A demora serviu para a nova gestão arrumar a casa antes de receber os compradores.
Nova gestão, nova estratégia
Giuseppe Marsocci, veterano da casa, assumiu a presidência executiva com a missão de transformar um “império de um homem só” em uma corporação escalável. Ele conta com o Boston Consulting Group e um conselho renovado, onde figuram nomes de peso como Marco Bizzarri (ex-Gucci) e Federico Marchetti (fundador da Yoox).
No front criativo, a aposta é Dario Vitale. Vindo da Miu Miu — onde ajudou a rejuvenescer a marca da Prada —, ele assume a Emporio Armani, responsável por quase um terço dos € 2,2 bilhões de receita anual. O mandato é claro: tornar a linha mais jovem, clara e relevante, sem perder o DNA da casa.
Números que explicam a pressa
O balanço de 2025 expõe a urgência da reestruturação. A receita caiu 2,8% pelo segundo ano seguido, fechando em € 2,19 bilhões. O alívio veio na rentabilidade: o EBITDA subiu 3,2%, para € 153 milhões, impulsionado por cortes de custos e pela força da alta-costura Armani Privé.
- Receita 2025: € 2,19 bi (-2,8%)
- EBITDA 2025: € 153 mi (+3,2%)
- Fatia à venda: 15% (conforme testamento)
- Prazo final: Março de 2025 (18 meses pós-morte)
Por que os gigantes hesitam?
Apesar do prestígio, nenhum dos três candidatos demonstra apetite voraz por um cheque grande agora. A EssilorLuxottica, parceira de óculos até 2038, foca em tecnologia médica e EUA; um aporte seria mais gesto de boa vontade do presidente Francesco Milleri do que estratégia de portfólio.
A L’Oréal, detentora da licença de beleza até 2050, prioriza proteger esse ativo. Já a LVMH, embora interessada, esbarra no “desencaixe”: a Armani fatia forte em faixas de preço mais baixas e depende de moda, enquanto Bernard Arnault privilegia acessórios de altíssima margem. Laços pessoais entre as famílias Arnault e Armani pesam, mas não fecham negócio sozinhos.
O abismo do valuation
O maior entrave pode ser a etiqueta de preço. A família e assessores falam em € 10 bilhões (cerca de R$ 59 bi) para o valor total da empresa. Do lado dos investidores, as estimativas variam entre € 3 bilhões e € 7 bilhões (R$ 17,7 bi a R$ 41,5 bi).
Se ninguém aceitar pagar o prêmio pedido, o plano B já está na mesa: uma abertura de capital (IPO). Isso transformaria a sucessão em um processo público, sujeito à volatilidade do mercado e à transparência total dos números — algo que a cultura discretamente familiar da Armani sempre evitou.
O que observar daqui para frente
As próximas seis semanas definem o rumo da casa. Acompanhe três frentes: a capacidade de Vitale reverter a curva da Emporio Armani já nas próximas coleções; a disposição da LVMH em flexibilizar seu modelo de aquisição para acomodar a estrutura única do grupo italiano; e, claro, se o valuation de € 10 bilhões resiste à realidade de um mercado de luxo em retração. Se a Armani provar que cresce sem Giorgio, o preço deixa de ser obstáculo e vira detalhe.
