Pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados na corrida presidencial, e o mercado já reagiu: o fluxo estrangeiro virou comprador em setembro. A dúvida que fica é como posicionar o portfólio para ganhar com a indefinição — ou ao menos não perder.
Por que o humor do mercado virou de agosto para setembro
Em agosto, o cenário político era citado pelo JPMorgan como vetor de pressão. O Ibovespa caiu 0,32% e o dólar subiu 2,21%. Em setembro, o quadro inverteu: a Bolsa avançou 6,4% e a moeda americana recuou 0,25%.
A virada coincide com o aperto nas pesquisas. No Datafolha de 21 de agosto, Lula tinha 39% contra 33% de Flávio. No levantamento de 24 de setembro, a diferença caiu para 40% a 36%, dentro da margem de erro de dois pontos. Paralelamente, o saldo de investidores estrangeiros na B3 saltou para R$ 9,6 bilhões positivos até o dia 22, revertendo a saída de R$ 18,1 bilhões do mês anterior.
Renda fixa: o refúgio imediato para quem quer previsibilidade
Para João Ferreira, sócio da One Investimentos, a regra é clara: quem tem carteira concentrada precisa diversificar já. Quem já está diversificado faz apenas ajustes táticos.
Na renda fixa, a preferência recai sobre ativos atrelados à Selic ou ao CDI — Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária.
- Vantagem: a remuneração segue o índice de referência sem sofrer a marcação a mercado dos títulos longos.
- Objetivo: eliminar a oscilação de preço causada pelas expectativas de juros futuros.
Ações defensivas: onde a receita não depende do ciclo político
Ferreira destaca três pilares para a bolsa: serviços públicos (saneamento e energia), construção de baixa renda e empresas com receita indexada à inflação.
O setor de construção ligado ao Minha Casa, Minha Vida ganha destaque por ser política de Estado, independente de quem vencer. “Fluxo de caixa previsível e desacoplado da taxa de juros”, resume o analista.
Cenários 2026: as apostas do BTG e do Citi para cada candidato
O BTG Pactual aponta a Petrobras como ativo de “consenso”, beneficiada pela alta do petróleo. Em cenário de desfecho positivo para o mercado, o banco cita B3, XP, BTG Pactual, Rede D’Or, Cyrela e Motiva.
O Citi desenhou carteiras distintas:
| Cenário Lula (PT) | Cenário Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|
| Cury, Embraer, WEG, BTG Pactual | Cyrela, Assaí, Hapvida, Petrobras, Vale, B3 |
| Foco: empresas resilientes em diferentes condições | Foco: cíclicas e alavancadas (ganham com juros menores e consumo) |
A leitura do Citi é que ambos terão de enfrentar o mesmo desafio fiscal: restaurar a confiança na trajetória da dívida. A diferença está no como: Flávio defende ajuste sem mexer em Previdência ou salário mínimo; Lula propõe reduzir o ritmo dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço. Economistas alertam que, na prática, um ajuste duradouro exigirá mexer em aposentadorias e benefícios.
O prêmio de risco e a curva de juros: o que realmente move o preço
Parte do mercado precifica uma alternância de poder como sinal de maior rigidez fiscal. Se confirmada, a percepção de controle da dívida reduz o prêmio de risco, alivia a curva de juros longos e, em cascata, barateia o crédito para empresas — combustível para a Bolsa.
Não por acaso, a alta do petróleo e o fluxo para commodities brasileiras têm dado suporte adicional aos ativos domésticos nas últimas semanas.
O que observar daqui para a frente
A XP alerta: historicamente, a volatilidade não explode durante a campanha, mas após a definição do vencedor. O gatilho real será a composição da equipe econômica, as sinalizações concretas de política fiscal e, principalmente, os primeiros atos sobre gastos públicos.
Até lá, a estratégia vencedora continua sendo a diversificação entre ativos indexados à Selic, papéis de empresas com receita indexada à inflação e exposição tática a setores que se beneficiam de juros mais baixos — mantendo a liquidez alta para ajustar a rota no dia seguinte à eleição.
