A dívida pública brasileira deve crescer a mais de 4% do PIB ao ano no próximo quadriênio, quase dobrando o ritmo de 2,8% registrado entre 2023 e 2026. A projeção assume que nenhum esforço fiscal extra seja feito além do arcabouço atual. O cenário muda radicalmente a equação de risco para quem precifica ativos no país.
Três forças combinadas explicam a aceleração. Entender cada uma delas é essencial para antecipar o custo de capital nos próximos anos.
O trio que empurra a dívida para cima
Primeiro, o ponto de partida: a dívida bruta chegará ao fim de 2026 cerca de 12 pontos percentuais do PIB acima do nível de 2022. É uma herança pesada que eleva a base sobre a qual os juros incidem.
Segundo, acabou o “subsídio” da pandemia. Grande parte do estoque foi contratado quando a Selic estava no piso histórico. Esses títulos venceram e foram rolados a taxas muito maiores. O custo médio da dívida subiu e não há sinal de reversão estrutural no curto prazo.
Terceiro, o motor do crescimento vai perder força. A taxa de desemprego caiu de 8,5% para 5,5% no período recente — um choque positivo de oferta de trabalho que não se repetirá. Não há espaço para o desemprego cair mais 3 pontos percentuais; o crescimento extensivo, baseado na redução de ociosidade, bateu no teto.
Comparativo rápido: dois quadriênios
- 2023-2026: Dívida sobe ~2,8% do PIB/ano; desemprego cai 3 p.p.; juros de rolagem baixos.
- 2027-2030 (projetado): Dívida sobe >4% do PIB/ano; desemprego estável ou em alta; juros de rolagem elevados.
A diferença não é marginal. É a mudança de uma dinâmica administrável para uma trajetória explosiva, caso a política fiscal não mude de patamar.
A proposta de ajuste: 2% de superávit em quatro anos
Felipe Salto e Josué Pellegrini desenharam um plano para gerar superávit primário de 2% do PIB em quatro anos. A divisão: um terço via receita (corte linear de 23,5% nos gastos tributários) e dois terços via despesas.
No lado da receita, a mira está em benefícios como a dedução integral de saúde no IRPF. No gasto, duas medidas estruturais: desvincular o piso da previdência e de benefícios sociais do salário mínimo e indexar os pisos constitucionais de saúde e educação pelo mesmo limitador do arcabouço fiscal.
Por que o gasto obrigatório dita o juro real
Sem desacelerar o crescimento das despesas obrigatórias, o juro real não cai. A lógica é direta: quando o gasto primário cresce acima do potencial da economia, o setor público injeta demanda mais rápido do que a capacidade produtiva responde. O Banco Central reage elevando a Selic para conter a inflação.
Portanto, mesmo com superávit de 2%, se a rigidez do orçamento mantiver a despesa correndo mais que o PIB, a dívida continua subindo. A âncora fiscal só funciona se a despesa obrigatória frear.
O que observar daqui para frente
O debate eleitoral de 2026 ignorou a aritmética: discutiu-se escândalos bancários e pautas de costumes, mas o conflito distributivo real está no Orçamento. Para o investidor e o empresário, o sinal de alerta é a velocidade de implementação das medidas de contenção de gastos obrigatórios. Sem elas, a curva de juros longa continuará embutindo prêmio de risco crescente — e o custo de financiamento de projetos produtivos seguirá penalizado.
