Cultura

O segredo que ninguém conta: quilombo urbano barra especulação na zona sul do Rio

Quilombo Urbano Ferreira Diniz na Glória, zona sul do Rio, tombado pelo Iphan contra especulação imobiliária
Primeiro quilombo urbano do Rio tombado pelo Iphan, o Ferreira Diniz na Glória barra especulação na zona sul.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou na semana passada o Quilombo Urbano Ferreira Diniz, na Glória, zona sul do Rio — o primeiro do estado a receber essa proteção federal. A decisão cria um precedente jurídico que pode redefinir a relação entre preservação cultural e valorização imobiliária em áreas nobres. O que isso significa para investidores e para o futuro da ocupação urbana?

O precedente que muda as regras do jogo imobiliário

O tombamento abrange a totalidade do terreno na Rua Cândido Mendes: quintal com árvores nativas, casarões neoclássicos do início do século XX e espaços de uso coletivo. Na prática, o ato impõe restrições legais a demolições, descaracterização e intervenções incompatíveis com o valor cultural reconhecido.

Para o mercado, o sinal é claro: a lógica de “maior e melhor uso” do solo encontra um limite duro quando há patrimônio vivo envolvido. A superintendente do Iphan no Rio, Patricia Corrêa, resumiu as quatro funções da medida: jurídica, territorial, simbólica e reparatória. A última, especialmente, obriga o poder público a enfrentar o apagamento de comunidades negras em áreas centrais valorizadas.

Por que a feijoada da Tia Cida virou ativo estratégico

O quintal do quilombo funciona como polo gastronômico e cultural. Às sextas-feiras, a feijoada preparada por Maria Aparecida Ferreira — a Tia Cida — atrai cariocas e turistas, gerando renda direta para as 14 famílias residentes. O evento também financia a manutenção do casarão principal, que carece de reformas urgentes.

Esse modelo de economia da cultura comunitária chama a atenção por três razões:

  • Autossustentação: a atividade comercial dispensa aportes públicos recorrentes.
  • Visibilidade: a presença constante de visitantes funciona como “guarda” orgânica do território.
  • Replicabilidade: a fórmula pode inspirar outras comunidades em processo de regularização fundiária.

Mas o efeito mais relevante aparece na disputa pela posse da terra.

O entrave fundiário que ainda ameaça a comunidade

O tombamento pelo Iphan não equivale à titulação coletiva do terreno. Essa etapa depende do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), cujo processo está em fase inicial. A comunidade contratou a Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) para elaborar o estudo técnico exigido — prazo de entrega: final de 2026.

Sem a escritura coletiva, os moradores seguem expostos a dois riscos concretos: desapropriação por interesse público e venda fracionada do imóvel por herdeiros alheios ao quilombo. A presidente da associação comunitária, Érida Ferreira, historiador formada pela Uerj, destaca que o diferencial do tombamento foi incluir as pessoas como parte do bem protegido, não apenas as paredes.

Lições de governança coletiva para o urbanismo do futuro

A pesquisadora Ana Carmen Amorim Jara Casco, responsável pelo estudo da UFF, observa a comunidade há três anos. Ela aponta um modelo de cuidado infantil e idoso radicalmente distinto do padrão de condomínios fechados: “uma criança não é filha do ‘fulano’, mas filha de todo mundo”.

Esse arranjo social reduz custos de cuidado, aumenta a resiliência diante de choques econômicos e produz coesão territorial — ativos intangíveis que o mercado imobiliário convencional costuma ignorar na precificação de ativos. O quilombo Ferreira Diniz é um dos 13 quilombos urbanos do estado do Rio, num total de 54 reconhecidos pela Associação Estadual das Comunidades Quilombolas.

O que investidores e gestores públicos devem monitorar daqui para frente

Três variáveis definirão se o caso vira jurisprudência ou exceção isolada:

  • Desfecho do processo no Incra: a titulação coletiva até 2027 consolidaria a segurança jurídica definitiva.
  • Destinação de recursos para reforma do casarão: programas federais de habitação e patrimônio histórico precisam ser acionados.
  • Reação do mercado imobiliário local: incorporadores podem testar os limites do tombamento em áreas adjacentes, forçando definições regulatórias mais claras.

O tombamento do Ferreira Diniz não é apenas uma vitória simbólica. É um caso-teste para saber se o Brasil consegue conciliar densidade urbana, valorização imobiliária e permanência de comunidades tradicionais no mesmo endereço. A resposta virá nos próximos editais de licenciamento e nas próximas assembleias de condomínio da Glória.