Tecnologia

O segredo das grandes bancas: IA acelera trabalho, mas honorários não caem

Advogados em escritório moderno usando ferramentas de inteligência artificial para análise de contratos e due diligence
Grandes bancas adotam IA para acelerar trabalho, mas mantêm honorários baseados em horas faturadas

Os maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos exibem orgulhosos suas novas ferramentas de inteligência artificial. A festa da eficiência, porém, esconde um problema incômodo: os clientes não querem pagar a mesma conta por um trabalho que ficou mais rápido.

Sullivan & Cromwell, Cooley e Ropes & Gray lançaram recentemente sistemas próprios para análise de contratos, preparação de IPOs e due diligence. A promessa é reduzir semanas de trabalho a horas. Mas, num setor que fatura por hora, velocidade não é virtude — é ameaça à receita.

Quando o cliente vira o fiscal da fatura

A pressão vem dos dois lados. Departamentos jurídicos corporativos agora usam seus próprios agentes de IA para escanear faturas e identificar tarefas que a tecnologia poderia ter executado.

“Eles literalmente riscam esses itens e dizem: ‘Quero um desconto nisso'”, relata Jennifer Leonard, da Creative Lawyers. Pedidos de redução entre 20% e 30% no valor total tornaram-se rotina, segundo Kyle Poe, da Legora.

O argumento dos escritórios é que a IA ainda não poupa tanto tempo assim e que a composição do trabalho mudou: menos tarefas repetitivas, mais análise estratégica. A resistência aos grandes descontos continua forte.

O surgimento dos “escritórios nativos de IA”

Enquanto as bancas tradicionais hesitam, uma nova concorrência nasce sem o lastro da hora faturável. A Norm AI, startup com braço de advocacia focado no setor financeiro, captou US$ 260 milhões em julho, atingindo valuation de US$ 1,2 bilhão. Investidores como Khosla Ventures, Blackstone e Bain Capital viraram clientes.

Esses players oferecem preços fechados e dependem quase totalmente de agentes autônomos. Para as grandes bancas, o cenário vira um impasse: usar IA reduz horas faturáveis, mas não usá-la abre espaço para quem cobra menos.

O modelo de hora faturável tem data de validade?

Dados do Citi mostram que 35% dos 55 grandes escritórios consultados esperam mudar o modelo de cobrança em um ano; 65% projetam a mudança até 2035. Jeff Bleich, enviado da Anthropic, foi direto a uma plateia de advogados: “Não acho que a cobrança por hora seja a solução”.

Por enquanto, a receita das grandes bancas cresceu mais de 12% no primeiro semestre e as taxas-hora subiram dois dígitos, segundo o Wells Fargo. A hora faturável segue viva porque gerencia risco em causas imprevisíveis — evita cobrar fixo por um caso que pode dobrar de custo.

O caminho híbrido: fixo para o padrão, hora para o estratégico

A transição tende a ser cirúrgica, não revolucionária. A expectativa do mercado aponta para um modelo misto:

  • Preço fixo / honorários fechados: tarefas repetitivas, de alto volume e ideais para IA (due diligence, registro de marcas, fechamentos imobiliários).
  • Hora faturável: estratégia, negociação complexa, litígios de alto risco e pareceres que exigem julgamento humano.

Jon Ballis, presidente do Kirkland & Ellis, admite: “Grandes escritórios adotarão mais preços fixos e cobranças por projeto. Isso já está acontecendo e continuará”. O Ropes & Gray já negocia honorários fixos e detalha o uso de IA no início e fim de cada projeto.

O que observar daqui para frente

A mudança é gradual porque ninguém quer ser o primeiro a pular do penhasco. As bancas estão “se preparando para o dia em que de fato precisarão mudar de rumo”, resume Poe. O gatilho definitivo virá quando a IA provar, em escala, que substitui horas de sócios — e não apenas de associados júnior. Até lá, a negociação de cada fatura segue como o termômetro real da disrupção.