O grupo Armani iniciará nas próximas semanas negociações formais com LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica para a venda de uma fatia de 15%, mas a distância entre a avaliação interna — cerca de € 10 bilhões — e as ofertas esperadas, entre € 3 bilhões e € 7 bilhões, coloca o desfecho em aberto. O testamento de Giorgio Armani impôs um prazo de 18 meses após sua morte, ocorrida em setembro de 2023, para que os herdeiros concretizassem a operação.
Os três nomes à mesa e a regra do jogo
Pessoas próximas ao processo revelam que a ideia preliminar prevê a divisão da participação minoritária entre os três gigantes. “Ninguém quer se lançar de imediato, mas ninguém quer deixar a oportunidade passar. Assim, todos conseguem um lugar à mesa”, resume uma fonte a par das conversas.
As reuniões, antes previstas para junho, foram adiadas para o final de setembro ou início de outubro. O atraso reflete a reestruturação interna comandada pelo novo CEO, Giuseppe Marsocci, com apoio da Boston Consulting Group, para apresentar um plano estratégico crível antes de abrir os livros.
Por que os gigantes hesitam em fechar o cheque
Apesar do prestígio da marca, cada pretendente carrega restrições estratégicas que reduzem o apetite por um investimento substancial no curto prazo:
- LVMH: Encaixe duvidoso no portfólio. A Armani gera receita relevante em faixas de preço inferiores às marcas-chave de Bernard Arnault e tem peso maior em moda do que em acessórios de alta margem. Laços pessoais entre as famílias Arnault e Armani pesam a favor, mas não definem o negócio.
- L’Oréal: Prioridade é proteger o acordo de licenciamento de cosméticos, válido até 2050. O grupo investe em labels como Jacquemus, mas não as gere operacionalmente.
- EssilorLuxottica: Foco declarado em expansão de tecnologia médica e no mercado dos EUA. O contrato de licenciamento de óculos vai até 2038; qualquer aporte seria mais um gesto de boa vontade do CEO Francesco Milleri do que movimento estratégico.
A nova arquitetura de poder sem o fundador
Desde a posse de Marsocci, um mês após o falecimento do estilista, a governança foi reformulada. O conselho, antes dominado pela família, ganhou executivos de peso: Marco Bizzarri (ex-Gucci) e Federico Marchetti (fundador da Yoox). Leo Dell’Orco, veterano da casa, assumiu a presidência do colegiado.
Na ponta criativa, a contratação de Dario Vitale — responsável por rejuvenescer a Miu Miu — sinaliza a urgência em revitalizar a Emporio Armani, linha que responde por quase um terço dos € 2,2 bilhões de receita anual. A missão é torná-la “mais jovem, mais clara e mais relevante”, sem perder a identidade da casa.
Números que explicam a pressa e a cautela
O pano de fundo financeiro mistura sinais de alerta e eficiência:
- Receita caiu 2,8% em 2025, para € 2,19 bilhões — segundo ano consecutivo de queda (2024 recuou 5%).
- EBITDA subiu 3,2%, atingindo € 153 milhões, impulsionado por cortes de custo e força da Armani Privé (alta-costura).
Essa divergência entre topo de linha encolhendo e rentabilidade melhorando via gestão é o principal argumento da nova gestão para justificar o valuation de € 10 bilhões. Investidores, contudo, veem um negócio em transição num ciclo de luxo fraco.
O que observar daqui para frente
Se os três preferenciais não convergirem para um preço aceitável — ou se a Armani rejeitar as ofertas —, a alternativa prevista no testamento é a abertura de capital (IPO). O cronograma agora depende de duas variáveis: a capacidade de Vitale reverter a curva da Emporio nos próximos desfiles e a disposição da LVMH em pagar o “prêmio de controle” que a família exige. O fechamento — ou a frustração — dessas rodadas em outubro ditará se a Armani vira mais uma joia num conglomerado ou segue sozinha na bolsa.
