Investidores estrangeiros injetaram US$ 942 bilhões em ações e fundos americanos nos 12 meses até julho, o maior volume anual desde o início da série histórica do Tesouro, em 1985. Enquanto a bolsa atrai capital sem precedentes, a demanda por títulos de dívida dos EUA segue em direção oposta. O que está por trás dessa rotação radical?
O tamanho do movimento em números
No segundo trimestre, as compras líquidas atingiram US$ 426 bilhões — alta de 62% frente ao mesmo período do ano anterior e bem acima do recorde trimestral anterior, de US$ 299 bilhões em 2022. O ritmo acelerou mês a mês:
- Abril: US$ 110 bilhões
- Junho: US$ 182 bilhões (pico do trimestre)
- Julho: US$ 3,7 bilhões (desaceleração brusca)
Foi o sexto mês consecutivo de entrada líquida, segundo dados mensais do Tesouro americano.
O efeito no S&P 500 e nas big techs
O apetite externo coincidiu com uma valorização de cerca de 20% do S&P 500 na janela de 12 meses. No segundo trimestre, o índice subiu 14,9% — melhor desempenho trimestral desde 2020. Ações de tecnologia como Sandisk, Western Digital e Intel figuraram entre os destaques, turbinando o retorno para quem já estava posicionado.
O outro lado: a fuga dos Treasuries
Enquanto ações absorviam recursos, a demanda por dívida americana perdeu fôlego. No segundo trimestre, estrangeiros compraram US$ 188 bilhões em títulos, contra US$ 314 bilhões nos três primeiros meses do ano. A China, maior credor externo histórico, reduziu sua posição em Treasuries para US$ 618 bilhões — menor nível desde agosto de 2008 —, diversificando para ouro e títulos de agências.
Por que a rotação agora? A leitura de Brad Setser
Parte do salto no segundo trimestre pode refletir recompras adiadas por um primeiro trimestre fraco, explica Brad Setser, do Council on Foreign Relations. Mas a tendência estrutural é outra: mercados acionários fortes na Coreia do Sul e em Taiwan levaram investidores locais a diversificar para fora de suas bolsas domésticas — Samsung e Hynix subiram tanto que gestores atingiram limites de concentração e viraram compradores de ações americanas.
Saídas superiores a US$ 200 bilhões da Coreia para ações globais (majoritariamente EUA) são “muito raras”, diz Setser. O movimento é compatível com um dólar forte e apetite acima do normal por risco.
O que observar daqui para frente
O cenário deixa duas tensões abertas: de um lado, o otimismo global com a bolsa americana sustenta fluxos e o dólar; de outro, o grande déficit fiscal dos EUA depende de compradores de dívida que estão recuando. Se a entrada em ações arrefecer — como sugeriu julho — a pressão sobre os Treasuries e sobre a moeda pode aumentar. Para quem aloca capital, o sinal está dado: a rotação setorial e geográfica continua, mas a margem de segurança nas ações americanas depende, agora, da sustentabilidade do fluxo estrangeiro.
