Meio Ambiente

Vale retoma Mina de Fábrica: o que muda após vazamento de 105 piscinas olímpicas

Mina de Fábrica da Vale em Ouro Preto com estruturas de mineração e barragens após vazamento ambiental
Vista da Mina de Fábrica em Ouro Preto, onde a Vale retomou operações oito meses após vazamento de 263 mil m³ de rejeitos.

A Vale obteve aval do Tribunal de Justiça de Minas Gerais para reativar parcialmente a Mina de Fábrica, em Ouro Preto, oito meses após um vazamento despejar 263 mil metros cúbicos de água turva em cursos d’água da região. A decisão sai no âmbito de um termo de compromisso firmado com o Ministério Público e o governo estadual.

O retorno ocorre com condicionantes ambientais e de segurança — mas sem alterar as projeções de produção da companhia. Para investidores e players do setor, a pergunta que fica é: qual o real peso desse ativo no portfólio atual e quais riscos residuais permanecem no radar?

O episódio que paralisou a operação

Em 25 de janeiro, uma falha no sistema de drenagem de uma das cavas da mina liberou volume equivalente a 105 piscinas olímpicas. A lama atingiu afluentes do rio Paraopeba, assoreou córregos, danificou vegetação nativa e invadiu área da CSN, vizinha na região. Parte do material chegou ao rio Goiabeiras, que corta a zona urbana de Ouro Preto.

Dias depois, em 26 de janeiro, novo vazamento na Mina de Viga, em Congonhas, agravou o quadro. O governo mineiro aplicou multa de R$ 1,7 milhão pelos dois eventos. A Justiça determinou a paralisação total no início de fevereiro.

O que diz o termo de compromisso

A autorização judicial não é um cheque em branco. A reativação está atrelada a:

  • Cumprimento de condicionantes de segurança e controle ambiental
  • Manutenção de licenças e autorizações vigentes
  • Continuidade das ações previstas no termo assinado com MP-MG e governo estadual

A Vale reforça que não houve carreamento de rejeitos de mineração — apenas água com sedimentos — e que as estruturas de barragens não foram comprometidas, conforme atestado pela ANM.

Impacto no guidance e no valuation

A mineradora afirmou que a volta da Mina de Fábrica não altera as projeções de produção vigentes. Em termos práticos, o ativo já estava precificado como paralisado nas estimativas do mercado. A reativação parcial remove um overhang regulatório, mas não injeta volume incremental relevante nas previsões de curto prazo.

Para analistas, o sinal positivo está na governança: a capacidade de negociar e cumprir termos com MP e estado reduz incerteza jurídica — ativo intangível que pesa no custo de capital de empresas do setor.

Riscos residuais no horizonte

Dois pontos merecem monitoramento contínuo:

  • Passivo ambiental: a recuperação das áreas atingidas (córregos, vegetação, rio Goiabeiras) ainda está em curso e pode gerar custos adicionais não provisionados
  • Fiscalização reforçada: a ANM e órgãos estaduais tendem a elevar a frequência de inspeções na Mina de Fábrica e em ativos vizinhos, o que pode gerar novas interdições pontuais

Outro vetor: a CSN, afetada materialmente pelo vazamento, pode buscar reparação civil separada — processo que costuma se arrastar por anos.

O que observar daqui para frente

Três indicadores práticos para quem acompanha o papel ou o setor:

  • Divulgação de relatórios trimestrais de monitoramento ambiental exigidos no termo de compromisso
  • Eventuais autuações ou novas condicionantes impostas pela ANM nas próximas inspeções
  • Evolução do capex alocado para estabilização definitiva do sistema de drenagem da cava

A reativação encerra um capítulo de incerteza regulatória, mas abre a fase de execução. Quem opera com horizonte de médio prazo deve tratar o ativo como “em observação” — não como risco eliminado.