Meio Ambiente

O buraco de US$ 1,3 tri: para cada $1 protegido, $30 financiam a destruição

Gráfico mostra proporção 1:30: US$ 1 para proteção da biodiversidade versus US$ 30 financiando destruição ambiental
Para cada dólar que protege a natureza, 30 dólares financiam sua destruição, revela relatório Financing Nature 2026.

Proteger a biodiversidade global exige um aporte adicional de US$ 1,317 trilhão por ano. O déficit quase dobrou em apenas seis anos, saltando de US$ 711 bilhões para o patamar atual. Mas o número que deveria assustar governos e investidores não é o que falta — é o que sobra para o lado errado.

A conta que não fecha e a velocidade do buraco

O alerta vem do relatório Financing Nature 2026, produzido pela The Nature Conservancy (TNC), WWF e Paulson Institute. As organizações rastreiam o fluxo de capital verde desde 2020. A conclusão é direta: o progresso existe, mas a escala continua isolada, enquanto a destruição avança em escala industrial.

Em 2020, o rombo era de US$ 711 bilhões. Hoje, supera US$ 1,3 trilhão. A curva de crescimento do déficit supera a capacidade de resposta dos mecanismos atuais de financiamento.

A matemática perversa: 30 para 1

Para cada dólar direcionado à conservação, trinta dólares financiam atividades que degradam a natureza. A proporção expõe a contradição central das finanças públicas globais.

Segundo Henry M. Paulson Jr., presidente do Paulson Institute, os governos gastam em um único mês com subsídios prejudiciais mais do que investem em proteção ambiental durante um ano inteiro. Não é falta de recurso; é alocação invertida.

Subsídios: a torneira que enche o balde errado

O estudo aponta a reforma de subsídios nocivos como a alavanca mais potente para fechar a lacuna. Setores como agricultura intensiva, pesca predatória e combustíveis fósseis absorvem a fatia majoritária desses incentivos perversos.

“Quando governos acertam os incentivos, o capital tende a acompanhá-los”, resume Paulson Jr. A lógica de mercado funciona — desde que o sinal de preço pare de subsidiar a extinção.

Mecanismos que funcionam (mas faltam escala)

O relatório valida instrumentos que já entregam resultado. A lista é curta, mas eficaz:

  • Mercados de carbono de alta integridade;
  • Acordos de Financiamento de Projetos para Permanência (PFP), fundos de transição que blindam áreas de conservação;
  • Crédito verde e títulos ligados à sustentabilidade com métricas verificáveis.

Carter Roberts, presidente da WWF nos EUA, reforça: as estratégias funcionam. O gargalo é a velocidade. “Precisamos implementá-las no ritmo e na escala exigidos pela perda da natureza”, afirma.

O papel dos grandes balanços

Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e Instituições Financeiras de Desenvolvimento são citados como peças-chave. Seus balanços e instrumentos de mitigação de risco podem mobilizar capital privado em volumes que governos sozinhos não conseguem.

A convergência entre crise climática e crise de biodiversidade deixa de ser retórica para virar critério de alocação. Projetos que separam as duas agendas perdem eficiência — e financiamento.

O que observar daqui para frente

A próxima janela crítica é a reforma dos subsídios nas maiores economias do G20. Movimentos regulatórios para taxar externalidades negativas e precificar ativos naturais no balanço corporativo devem acelerar. Para o investidor, o sinal claro: ativos que dependem de subsídios “sujos” carregam risco de estrangulamento regulatório. Quem antecipar a precificação da natureza captura o prêmio; quem ignorar paga a conta.