A organização Alianza Ceibo acaba de levar o prêmio Gulbenkian para a Humanidade — e o cheque de € 1 milhão (R$ 5,8 milhões) — por provar que a floresta em pé vale mais que qualquer exploração. O anúncio saiu nesta quarta-feira (23) em Lisboa, mas a história real acontece longe dos holofotes, nas margens de rios onde não chega rede elétrica.
O júri, presidido por Angela Merkel, escolheu a entidade entre 304 indicados de 73 países. O motivo: uma combinação rara de vitórias judiciais, tecnologia limpa e governança indígena que já funciona na prática.
Como 200 painéis solares mudam a equação do desmatamento
Desde 2014, a aliança — formada pelos povos A’i Kofan, Siekopai, Siona e Waorani — instalou 208 sistemas solares em áreas remotas. A conta é simples: 208 casas, sete escolas, três associações de mulheres e 14 postos de patrulha territorial agora funcionam sem geradores a diesel.
Hernán Payaguaje, cofundador e liderança Siekopai, explica a lógica direta:
- Família sem energia → derruba árvores → vende madeira → compra gerador → queima combustível fóssil.
- Família com solar → mantém a floresta em pé → ganha autonomia → vira guardiã do território.
“O projeto solar corta essa cadeia e promove a conservação da fauna e da flora”, resume Payaguaje. A conta fecha: cada painel instalado é uma motosserra a menos na floresta.
Água limpa onde o petróleo contaminou tudo
O alcance vai além da energia. A organização distribuiu 1.164 sistemas de captação e filtragem de água da chuva. Resultado: mais de 6.500 pessoas deixaram de depender de fontes poluídas por vazamentos de petróleo na Amazônia equatoriana e colombiana.
Alicia Salazar, do povo Siona, coloca em perspectiva: “Estamos preenchendo uma lacuna que os governos nacionais deveriam suprir. Somos uma organização pequena, mas pensamos no bem-estar do mundo.”
Vitórias no tribunal que valem territórios inteiros
A estratégia jurídica da Alianza Ceibo já anulou 52 concessões de mineração consideradas ilegais no território A’i Kofan. As decisões fortaleceram direitos fundiários e a exigência de consulta livre, prévia e informada antes de qualquer exploração de petróleo ou minerais.
Para Johan Rockström, cientista sueco e jurado do prêmio, o recado é claro: “As soluções para a crise climática já existem. Em uma época de riscos ambientais sem precedentes, é mais importante do que nunca celebrar a esperança sustentada em provas concretas.”
O que vem depois do prêmio milionário
Os cofundadores confirmam: o recurso será aplicado no fortalecimento das atividades da organização pelos próximos dez anos. A meta declarada é replicar o modelo em outros territórios, comunidades e países.
“A natureza já deu o suficiente para o proveito do ser humano. Agora é o momento de nós, como humanidade, fazermos algo pela natureza”, afirma Payaguaje.
O que observar daqui para frente
O precedente jurídico das 52 concessões anuladas abre caminho para novas ações em territórios vizinhos. A expansão dos sistemas solares e de água deve atingir novas comunidades ainda em 2025. E a governança paritária — homens e mulheres em liderança igualitária — segue como diferencial de gestão que investidores e formuladores de política pública precisam estudar de perto.
A mensagem que fica: a maior reserva de carbono do planeta não é protegida por cercas, mas por quem vive nela e tem tecnologia, direito e vontade de mantê-la viva.
