Economia

Jornalista larga TV e fatura com hambúrgueres “Infiel” e “Namorado” em Salvador

Driele Veiga sorri ao lado do food truck Rainhas do Sabor em Salvador, exibindo hambúrgueres artesanais
Ex-repórter de TV Driele Veiga comanda o food truck Rainhas do Sabor, sucesso em Salvador com hambúrgueres temáticos.

Uma repórter de TV trocou o teleprompter pela chapa quente e, em poucos meses, transformou um food truck em fenômeno de fila na capital baiana. O cardápio? Hambúrgueres com nomes que contam histórias de relacionamento — e o faturamento superou as projeções do primeiro semestre.

Driele Veiga não planejava virar empreendedora. A virada veio de uma pergunta casual entre amigas: “Bora abrir um CNPJ?”. Hoje, o Rainhas do Sabor roda bairros nobres e periféricos de Salvador com um modelo que mistura marketing afetivo, gestão enxuta e um segredo operacional que a maioria ignora.

O nome que virou marca registrada

Batizar sanduíches com rótulos de status amoroso não foi aleatório. Ficante, Namorado, Infiel e Casado criam identificação imediata. O cliente não pede “o número 3” — ele pede “um Infiel, por favor”. A brincadeira virou ativo de marketing orgânico: fotos dos wrappers personalizados inundam Stories no Instagram sem custo de mídia paga.

Camila Santa Bárbara, sócia e responsável pela cozinha, testou 17 receitas antes de fechar o cardápio final. O “Namorado” — blend de 180g, queijo cheddar inglês, bacon artesanal e maionese da casa — responde por 42% das vendas. O “Infiel”, com dupla de carnes e molho barbecue defumado, atrai o público que busca intensidade.

Da redação para a rua: a curva de aprendizado

Veiga admite: “Na TV, eu tinha pauta, prazo e equipe. No truck, eu sou a pauta, o prazo e a equipe”. A transição exigiu dominar três frentes simultâneas:

  • Logística de insumos perecíveis com fornecedores locais
  • Roteirização diária baseada em dados de fluxo por bairro
  • Atendimento ao cliente como extensão da marca

O investimento inicial girou em torno de R$ 180 mil — veículo adaptado, equipamentos, capital de giro e reservas para imprevistos. O ponto de equilíbrio projetado para o mês 8 foi atingido no mês 5. A margem líquida estabilizou na casa dos 22% após o terceiro mês de operação plena.

O pulo do gato: dados decidem onde estacionar

Diferente da intuição de “parar onde tem gente”, a dupla usa planilhas cruzadas: fluxo de pedestres por horário, proximidade de escritórios e faculdades, calendário de eventos da prefeitura e até previsão de chuva. Segundas e terças: circuito comercial da Pituba. Quarta a sexta: orla da Barra e Rio Vermelho. Sábados: feiras de economia criativa. Domingos: rotativo conforme demanda de festas privadas.

Essa precisão reduziu o tempo ocioso em 37% comparado ao primeiro mês. Cada hora parada custa cerca de R$ 85 entre mão de obra, depreciação e insumos preparados.

Gestão de gente sem RH formal

Com quatro funcionários fixos e dois freelancers para picos, a escala segue regra simples: quem abre não fecha. Folgas fixas às segundas. Treinamento contínuo acontece no próprio truck — 15 minutos antes do expediente para alinhar padrão de montagem, tempo de chapa e script de abordagem. “Padronização é o que permite crescer sem perder a alma”, resume Veiga.

O que observar daqui para frente

O próximo passo não é abrir loja física — pelo menos não em 2026. O foco está em estruturar uma cozinha central para abastecer dois trucks simultâneos até o Carnaval de 2027, mantendo a mobilidade como diferencial competitivo. Paralelamente, a marca negocia licenciamento dos molhos próprios para varejo em empórios baianos.

Para quem acompanha o mercado de alimentação fora do lar, o case sinaliza: marca forte + operação baseada em dados + capital enxuto ainda bate modelo tradicional de ponto fixo alto custo. A pergunta que fica: quantas “Rainhas do Sabor” o mercado comporta antes de saturar o conceito?