O número de brasileiros com o nome sujo em bancos tradicionais e fintechs simultaneamente saltou para 8,92 milhões em julho de 2026. Em dezembro de 2019, esse grupo mal passava de 1,96 milhão. A escalada expõe uma fratura silenciosa no orçamento das famílias.
Os dados da Serasa Experian revelam um fenômeno que vai além do endividamento comum: a duplicidade de credores. Quem deve para os dois lados perde margem de negociação e vê as taxas de juros compostas devorarem a renda.
O retrato de uma armadilha financeira
O crescimento de 355% em seis anos e meio não aconteceu por acaso. A expansão agressiva de crédito por fintechs, somada à manutenção de linhas antigas nos grandes bancos, criou um corredor de mão dupla. O consumidor pegou empréstimo de um lado para pagar o outro — e acabou devendo nos dois.
Em julho de 2026, o total de pessoas com restrição em qualquer instituição financeira chegou a 72,4 milhões. Dessas, mais de 12% carregam o peso duplo. É a fatia que mais cresce, segundo a série histórica.
Por que a negociação trava
Quando a dívida está concentrada em um único banco, há espaço para renegociação: alongamento de prazo, carência, redução de juros. Com dois credores distintos, a conversa muda de figura.
- Fintechs costumam ter processos automatizados e menos flexibilidade humana.
- Bancos tradicionais exigem quitação de parcelas atrasadas antes de reabrir diálogo.
- O devedor fica refém de duas réguas diferentes — e nenhuma das duas perdoa.
O resultado prático: mais tempo no cadastro negativo, score de crédito estagnado e acesso a novas linhas praticamente vedado.
O perfil de quem cai na duplicidade
Não há um único rosto, mas padrões se repetem. Trabalhadores informais, microempreendedores e jovens que entraram no mercado de crédito nos últimos cinco anos compõem a maior parte. Muitos usaram crédito de fintech para capital de giro ou emergências médicas, mantendo o cheque especial ou cartão do banco tradicional ativo.
Um detalhe crítico: 68% desse grupo tem renda de até dois salários mínimos. A margem para absorver dois juros rotativos — que podem passar de 300% ao ano somados — simplesmente não existe.
O que muda no radar dos birôs de crédito
A Serasa e a Boa Vista já ajustaram modelos de pontuação para pesar essa duplicidade. Quem deve para dois tipos de instituição perde mais pontos no score do que quem deve o mesmo valor para apenas uma. A lógica: risco de inadimplência em cascata.
Bancos e fintechs também cruzam dados via Open Finance. Se você renegocia com um, o outro sabe em tempo real. A assimetria de informação que o devedor podia explorar no passado desapareceu.
Cenários para os próximos trimestres
Com a Selic em 10,75% ao ano e a inflação de serviços pressionando, a tendência é de alta nos índices de inadimplência dupla. Projeções de mercado apontam para 10 milhões até o fim de 2026 se não houver intervenção estrutural — como programas de portabilidade de dívida com teto de juros.
O Banco Central monitora a métrica como indicador de estabilidade do sistema. Fintechs de crédito consignado privado ganham tração como alternativa, mas exigem vínculo empregatício formal — o que exclui justamente o perfil mais atingido.
O que observar daqui para frente
Três sinais merecem atenção imediata: (1) crescimento da carteira de crédito consignado privado para não-cltistas; (2) eventuais medidas do CMN para limitar juros compostos em dívidas duplicadas; (3) adesão ao Desenrola Brasil faixa 2, que agora aceita renegociação de dívidas em fintechs parceiras. Quem está no grupo dos 8,9 milhões deve priorizar a unificação de dívidas em uma única instituição — mesmo que a taxa pareça alta, a gestão única evita o efeito bola de neve.
