Economia

Selic: a diferença brutal entre o ano eleitoral de Lula e o de Bolsonaro

Gráfico compara Selic em anos eleitorais: queda de 8,3% em 2026 (Lula) vs alta de 48,6% em 2022 (Bolsonaro)
A Selic caiu 1,25 p.p. em 2026, enquanto subiu 4,5 p.p. no ano eleitoral anterior.

O Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano nesta quarta-feira (16), marcando a quinta redução seguida em 2026. A taxa acumula queda de 1,25 ponto percentual no ano, um recuo de 8,3% que contrasta radicalmente com o ciclo de alta de 48,6% visto na reeleição de Jair Bolsonaro.

Em 2022, os juros saltaram de 9,25% para 13,75% em meio à corrida presidencial. Hoje, o movimento é inverso, mas o custo do dinheiro segue elevado. O que essa divergência revela sobre o cenário para quem investe ou empreende?

O raio-x dos dois ciclos eleitorais

A comparação direta entre os dois últimos anos de disputa presidencial expõe uma assimetria rara. Enquanto 2022 foi definido por aperto monetário agressivo, 2026 segue trajetória de afrouxamento gradual, ainda que partindo de um patamar muito mais alto.

Veja como se desenharam as reuniões do Copom em cada período:

  • 2026 (Lula): Iniciou em 15,00% (jan) → 14,75% (mar) → 14,50% (abr) → 14,25% (jun) → 14,00% (ago) → 13,75% (set).
  • 2022 (Bolsonaro): Iniciou em 9,25% (jan) → 10,75% (fev) → 11,75% (mar) → 12,75% (mai) → 13,25% (jun) → 13,75% (ago/set).

Em 2022, não houve reunião em janeiro; a alta já vinha de dezembro de 2021, quando a taxa subiu de 7,75% para 9,25%. O ciclo de alta totalizou 4,5 pontos percentuais em menos de oito meses.

Por que o bolso do empresário sente diferença

A direção da taxa importa, mas o nível absoluto dita as regras do jogo. Em 2022, o pico de 13,75% foi atingido em agosto e mantido em setembro. Em 2026, a taxa começa setembro nesse mesmo patamar, após cair de 15%.

Na prática, o custo de capital para giro, investimento em máquinas ou financiamento imobiliário permanece pressionado. A queda de 1,25 ponto alivia margens futuras, mas não resolve o custo da dívida contratada no topo do ciclo.

Para o investidor de renda fixa, o prêmio encolhe. Títulos prefixados e atrelados ao IPCA+ viram a marcação a mercado oscilar com cada sinal do Copom. A janela para travar taxas reais acima de 6% ao ano, comum no início do ano, foi se fechando a cada corte.

O que mudou no radar da autoridade monetária

O pano de fundo macroeconômico explica a guinada. Em 2022, o choque de commodities pós-invasão da Ucrânia e a incerteza fiscal eleitoral forçaram o BC, então sob Roberto Campos Neto, a subir juros em pleno ano de urna.

Agora, a inflação corrente dá sinais de arrefecimento, permitindo o corte. Contudo, a expectativa para 2025 e 2026 segue acima da meta, o que impede cortes mais ousados. A diretoria atual sinaliza “serenidade e moderação”, evitando surpresas que desancorem as expectativas.

Mas o efeito mais relevante aparece na dinâmica do câmbio e do risco fiscal.

Cenários para o resto do ano: o que observar

O comunicado da reunião de setembro manteve a porta aberta para novos cortes de 0,25 ponto nas próximas reuniões, condicionados ao comportamento da inflação de serviços e ao arcabouço fiscal. Três variáveis vão ditar o ritmo:

  • Dólar e commodities: Qualquer ruído externo eleva o prêmio de risco e trava o ciclo de queda.
  • Fiscal: A credibilidade da meta de resultado primário dita a curva longa de juros.
  • EUA: O início do corte do Fed remove uma âncora externa, mas a velocidade americana importa mais que o início.

Se o Copom mantiver o passo de 0,25 pp, a Selic encerra 2026 em torno de 13,25%. Ainda alta, mas com viés de baixa consolidado — algo que 2022, no auge da incerteza, não oferecia.

O que fazer com essa informação agora

Para o gestor de caixa, a hora é de alongar duration na renda fixa com cautela, priorizando papéis indexados ao IPCA com vencimentos médios (2028-2030) para capturar o fechamento da curva real. Para o tomador de crédito, renegociar dívidas atreladas ao CDI antes dos próximos cortes pode travar um custo marginalmente menor.

O calendário do Copom tem mais duas reuniões em 2026 (novembro e dezembro). Acompanhar o Relatório Focus e as atas das reuniões deixa de ser rotina burocrática e vira ferramenta tática de precificação de risco. O ciclo virou, mas a velocidade ainda é ditada pela inflação que teima em não ceder no setor de serviços.