Dez presidenciáveis ocuparam as ruas, estúdios e redes sociais nesta terça-feira (15) — mas o que realmente importa para o mercado não são os comícios, e sim as propostas concretas que começaram a desenhar o próximo ciclo institucional. A agenda expôs rachaduras profundas sobre como cada campanha pretende lidar com o Judiciário, o sistema financeiro e as regras do jogo eleitoral.
Enquanto a atenção midiática focava na crise do STF, candidaturas de espectros ideológicos opostos convergiram em um ponto: a necessidade de mexer na estrutura do poder. A diferença está no como, no quando e no quanto isso custa para a previsibilidade dos negócios.
A reforma que pode redesenhar o Judiciário
Lula (PT) e Caiado (PSD) protagonizaram o debate mais relevante para a estabilidade institucional. O petista anunciou, em entrevista ao Jornal da Record, que fará uma segunda reforma no Judiciário caso reeleito, alterando critérios de indicação de ministros do STF. O goiano foi além: propôs idade mínima de 60 anos, quarentena de quatro anos para retorno à advocacia e de oito para disputar cargos políticos, além da promessa de indicar quatro mulheres à Corte.
Para investidores, o sinal é duplo. De um lado, a institucionalização de regras claras reduz o arbítrio. De outro, a politização do debate sobre a composição do Supremo antecipa um 2027 de tensão entre Poderes — justamente quando o novo governo precisará aprovar ajuste fiscal e marcos regulatórios.
Bancos públicos sob controle de trabalhadores: sinal para o mercado
Em São Luís (MA), Hertz Dias (PSTU) reuniu-se com bancários da Caixa em greve e defendeu que bancos públicos sejam 100% estatais e sob controle dos trabalhadores. A proposta, embora venha de candidatura nanica, ecoa em alas do PT e do PSOL e reaparece em manifestos de centrais sindicais.
O recado para o setor financeiro é claro: a discussão sobre governança do BNDES, Banco do Brasil e Caixa não saiu da pauta. Qualquer avanço nessa direção afeta rating de crédito, precificação de risco soberano e atratividade de parcerias público-privadas.
O fim da reeleição e a idade mínima no STF
Flávio Bolsonaro (PL) usou as redes para defender o fim da reeleição e criticar a crise no STF, atrelando a pauta à segurança pública. A proposta de mandato único de cinco ou seis anos reaparece a cada ciclo, mas ganha tração quando o Congresso busca respostas à percepção de desgaste do sistema partidário.
Se aprovada, a medida altera o horizonte de planejamento de políticas públicas — o que impacta diretamente contratos de longo prazo, concessões e marcos regulatórios setoriais.
O que o silêncio de alguns candidatos revela
Nem todos falaram. Wilson Grassi (Democrata) não teve agenda pública. Clariana Barão (DC) limitou-se a lamentar a crise no STF em vídeo. Renan Santos (Missão) focou em criticar a decisão do ministro Kassio Nunes Marques de se declarar impedido em julgamento envolvendo Alexandre de Moraes.
O vazio de propostas econômicas concretas nessas candidaturas — e até nas de maior estrutura — deixa um vácuo que será preenchido ou por promessas de última hora ou por pressões setoriais no segundo turno.
- Lula (PT): Segunda reforma no Judiciário; novos critérios para indicação ao STF
- Caiado (PSD): Idade mínima de 60 anos; quarentenas de 4 e 8 anos; 4 mulheres no STF
- Flávio Bolsonaro (PL): Fim da reeleição; pauta de segurança pública
- Hertz Dias (PSTU): Bancos 100% estatais sob controle dos trabalhadores
- Zema (Novo): Investigação de todos citados no caso Banco Master, incluindo parentes de ministros
O que observar daqui pra frente
A próxima semana trará o primeiro debate televisionado entre os principais nomes. O termômetro será: quem transforma propostas de palanque em textos legislativos com viabilidade de aprovação? O mercado precifica incerteza — e a clareza sobre regras do jogo (Judiciário, bancos públicos, mandatos) vale mais que qualquer promessa de curto prazo.
Fique atento às reações da Febraban, da OAB e do Congresso nos próximos dias. São eles que sinalizam se o ruído eleitoral vira risco sistêmico ou apenas ruído.
