A Casa dos Ventos formalizou um compromisso de R$ 10 bilhões para o Rio Grande do Sul nos próximos quatro anos. O termo de engajamento assinado com a InvestRS não é apenas mais um anúncio de intenção; ele aciona uma máquina de licenciamento e infraestrutura que promete alterar a geografia energética do estado. Mas a escala do plano esconde uma disputa silenciosa por protagonismo.
O presidente da InvestRS, Rafael Prikladnicki, revelou que o comandante da empresa, Clécio Eloy, mira o topo da tabela de investidores. A referência direta é a chilena CMPC, que projeta injetar R$ 27 bilhões na expansão de sua fábrica de celulose em Guaíba. A “brincadeira” de Eloy sinaliza apetite: a Casa dos Ventos quer ser o novo vetor de desenvolvimento da fronteira oeste gaúcha.
O projeto-âncora que já saiu do papel
Dos R$ 10 bilhões totais, R$ 3,9 bilhões já têm endereço certo: o complexo eólico Torquato Severo, em Dom Pedrito, na região da Campanha. A iniciativa, tocada em parceria com a gaúcha DGE, superou as duas barreiras mais críticas do setor.
- Licença Prévia: Concedida pela Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental).
- Conexão Garantida: Contrato assinado com o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para escoamento da energia.
Com o caminho regulatório desobstruído, o cronograma agressivo prevê início das obras em 2027 e entrada em operação comercial em 2029. São 90 aerogeradores previstos para transformar o vento da Campanha em eletricidade para o sistema interligado nacional.
Emprego e aço: o impacto direto no chão de fábrica
A fase de construção do Torquato Severo deve gerar 3 mil postos de trabalho diretos. Para a cadeia de suprimentos local — transporte, fundação, logística e hospedagem —, o efeito multiplicador tende a ser significativo em uma região historicamente dependente do agronegócio.
Mas o investimento total de R$ 10 bilhões sugere que Dom Pedrito é apenas a ponta da lança. A empresa não detalhou os demais ativos que compõem a carteira bilionária, porém a sinalização ao mercado é clara: há apetite para novos parques além do projeto piloto. A agilidade da InvestRS em destravar gargalos burocráticos será testada na velocidade dos próximos anúncios.
O “Everest” brasileiro e a corrida tecnológica
Enquanto o Rio Grande do Sul prepara o terreno, a Casa dos Ventos ergue um marco de engenharia no Ceará. No projeto batizado de Everest, a companhia instala o maior aerogerador do país: uma torre de 257 metros de altura.
Para efeitos de comparação, a estrutura supera a altura do Edifício Copan, em São Paulo. A aposta em turbinas de maior porte reduz a quantidade de máquinas necessárias por megawatt instalado, otimizando área e custo de manutenção. É uma demonstração de capacidade técnica que credencia a empresa perante investidores e órgãos reguladores gaúchos.
O que observar daqui para frente
O termo com a InvestRS funciona como um “fast track” institucional. A agência atua como facilitadora junto a secretarias estaduais, prefeituras e concessionárias de rodovias e energia. O empresário que atua na cadeia de logística pesada, fundações especiais ou componentes elétricos deve monitorar dois gatilhos:
- Licenciamento dos projetos subsequentes: A replicação da agilidade vista em Dom Pedrito ditará o ritmo do capital restante.
- Leilões de energia nova (A-4 e A-6): A contratação da geração futura no mercado regulado ou livre definirá a viabilidade financeira dos próximos parques.
O Rio Grande do Sul passa a ter dois vetores de investimento na casa das dezenas de bilhões: celulose no leste e eólica no oeste. A convergência entre infraestrutura de transporte e disponibilidade de mão de obra especializada será o fator decisivo para saber se a “brincadeira” de Clécio Eloy vira realidade concreta no PIB estadual.
