Especialistas alertam: a combinação de algoritmos opacos e deepfakes já está redesenhando o jogo eleitoral brasileiro — e a regulação atual pode não acompanhar a velocidade da tecnologia.
O aviso veio de duas das vozes mais respeitadas em direitos digitais no país, durante evento fechado para formuladores de política e sociedade civil. O que disseram muda a forma como empresas e investidores devem olhar para o ambiente digital nos próximos ciclos.
O algoritmo decide o que você vota — e você nem sabe
Fernanda Rodrigues, diretora do IRIS (Instituto de Referência em Internet e Sociedade), foi direta: os sistemas de recomendação das grandes plataformas funcionam como editores invisíveis. Eles escolhem quais conteúdos chegam a cada usuário, baseados em métricas de engajamento — não em relevância cívica.
“É preciso uma regulação mínima que assegure que as pessoas possam optar por não receber conteúdos padronizados e que assegure que os mecanismos de recomendação não tenham vieses discriminatórios”, afirmou.
Para o setor privado, o recado é claro: modelos de negócio baseados em microsegmentação política e viralização artificial entram na mira. Quem depende de alcance orgânico ou anúncios direcionados em ano eleitoral precisa mapear riscos de compliance agora.
IA generativa: o monopólio do debate e a lacuna de fiscalização
Larissa Santiago, cofundadora das Blogueiras Negras, trouxe um dado desconfortável: o desenvolvimento de IA no Brasil não nasce da demanda social, mas da disputa entre poucas big techs que controlam infraestrutura, dados e narrativa regulatória.
Ela reconhece que o marco legal brasileiro — em especial o PL 2338/2023 — é avançado no papel. O problema está na ponta: fiscalização fraca e educação midiática quase inexistente.
“As pessoas não conseguem entender a diferença entre uma pessoa real e uma pessoa criada pela IA. É preciso educar a população”, disse.
O precedente de 2016 e o que muda agora
Santiago conectou o impeachment de Dilma Rousseff — marcado por imagens manipuladas e narrativas distorcidas — ao momento atual. A diferença? Em 2016, a desinformação era artesanal. Hoje, é industrializada.
- Deepfakes de áudio e vídeo em tempo real
- Exércitos de bots com perfis sintéticos indistinguíveis de humanos
- Microtargeting psicográfico via dados comportamentais
A violência política de gênero e raça, segundo ela, encontra na IA generativa um multiplicador de força. Mulheres negras em cargos eletivos são alvos prioritários — o que distorce a representação democrática antes mesmo do voto.
O que está em jogo para o mercado
Não é apenas debate acadêmico. Três frentes concretas afetam negócios e investimentos:
- Risco regulatório: O TSE já sinalizou regras mais duras para 2026 — transparência algorítmica, rotulagem obrigatória de conteúdo sintético e responsabilidade solidária de plataformas.
- Reputação de marca: Empresas que anunciam em ambientes tóxicos ou amplificam desinformação sofrem boicotes organizados e queda de confiança do consumidor.
- Valuation de ativos digitais: Startups de adtech, martech e social listening terão que provar conformidade — ou perderão acesso a capital institucional.
O que observar daqui para frente
O calendário não perdoa. Até o primeiro semestre de 2026, três movimentos definem o tabuleiro: a votação final do marco da IA no Senado, as resoluções do TSE para propaganda eleitoral sintética e a capacidade do Ministério da Justiça de estruturar uma agência de fiscalização algorítmica com dentes.
Para quem decide alocação de capital, estratégia de comunicação ou produto digital: a janela para se adequar voluntariamente fecha antes da regulação chegar. Quem esperar o edital, paga o preço — em multas, em reputação ou em irrelevância.
