O Banco de Brasília (BRB) vendeu à vista um pacote de créditos originados no Master para o Banco XP por R$ 304,6 milhões, dinheiro que entrou no caixa em setembro e aliviou a liquidez da instituição. A operação, porém, carrega um deságio relevante e dependeu de uma autorização expressa do Supremo Tribunal Federal para sair do papel.
O que estava à venda e quanto valia de verdade
O negócio envolve seis Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) da Esfera Aquisições Imobiliárias, com vencimentos escalonados entre janeiro e agosto de 2029. O valor econômico desses títulos soma R$ 400,7 milhões, mas a XP pagou R$ 304,6 milhões — um deságio de cerca de 24%.
As garantias são imóveis da Esfera dados em alienação fiduciária. A maior cédula sozinha carrega R$ 110,6 milhões. Confira o detalhamento dos saldos:
- Cédula 1: R$ 110,6 milhões
- Cédula 2: R$ 84,6 milhões
- Cédula 3: R$ 63,1 milhões
- Cédula 4: R$ 62,4 milhões
- Cédula 5: R$ 51,2 milhões
- Cédula 6: R$ 28,8 milhões
O entrave judicial e a chave do STF
Como todos os ativos ligados ao Master estavam bloqueados judicialmente devido à liquidação do banco de Daniel Vorcaro, o BRB não podia simplesmente transferir a titularidade. A saída foi pedir aval ao ministro André Mendonça.
Em 28 de agosto, o ministro determinou o cancelamento das indisponibilidades na Central Nacional de Indisponibilidade de Bens (Cnib). Em 3 de setembro, a 10ª Vara Federal Criminal do DF confirmou o cumprimento. Só então a escritura pôde ser lavrada.
Movimento duplo: BRB sai de duas pontas ao mesmo tempo
A venda para a XP foi apenas a etapa final de uma reestruturação interna. Antes, o grupo RZK Empreendimentos comprou a participação do BRB (e de outro sócio) no Fundo Trevi, que controlava a Esfera. Por essa saída, o banco estatal embolsou mais R$ 35 milhões à vista, também em setembro.
Na prática, o BRB ocupava as duas pontas da operação: era credor das CCBs e, via fundo, devedor do projeto. A unificação pela RZK simplificou a estrutura e permitiu a cessão limpa para a XP.
As exigências da XP para fechar o cheque
A plataforma não entrou no negócio sem proteções robustas. O contrato prevê uma bateria de due diligences — jurídica, técnica, contábil, de crédito e fiscal — sobre os créditos e as garantias imobiliárias. A XP também exigiu:
- Comprovação do registro das CCBs na B3;
- Entrega de toda a documentação da operação anterior (Master para BRB);
- Salvaguardas contratuais para eventuais questionamentos futuros sobre a origem dos ativos.
O cenário maior: liquidez curta e resgate inacabado
O reforço de caixa chega em momento crítico. O BRB ainda não conseguiu fechar o empréstimo com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) necessário para o aumento de capital exigido pelo Banco Central. A venda das CCBs e da fatia no FIDC traz fôlego imediato, mas não resolve a equação estrutural.
Nos bastidores, Banco do Brasil e XP discutem a entrada da plataforma no consórcio de socorro ao banco candango. A pressão existe porque a XP foi a maior distribuidora de CDBs do conglomerado Master, com cerca de R$ 30 bilhões em papéis colocados — o BTG vem em segundo, com R$ 6,6 bilhões.
O que observar daqui para frente
Dois marcos ditam o próximo capítulo: a conclusão do aporte do FGC e a definição sobre a participação da XP no consórcio de resgate. Se o empréstimo do FGC travar, o BRB dependerá de novas vendas de ativos ou de aportes diretos do acionista controlador (GDF). Para o investidor ou parceiro comercial, o sinal a monitorar é a velocidade de execução do plano de capital — e se a XP transforma a exposição passada em compromisso formal de socorro.
