Economia

Selic a 14%: o que cada presidenciável propõe para seus juros e seu bolso

O Banco Central mantém a Selic em 14% ao ano, patamar que encarece o crédito, freia o consumo e pressiona o caixa de famílias e empresas. Com o endividamento batendo recorde — oito em cada dez lares devem alguma dívida —, a resposta dos candidatos à Presidência para destravar a economia virou a variável decisiva para 2026.

As propostas vão de ajustes cirúrgicos no arcabouço fiscal a rupturas completas no sistema financeiro. Entender esse espectro é essencial para quem precifica risco, planeja investimentos ou gere dívidas.

O eixo da responsabilidade fiscal: Lula, Caiado e Zema

Três candidaturas apostam na credibilidade das contas públicas como gatilho para a queda dos juros, mas com receitas diferentes.

Lula (PT) defende a manutenção do arcabouço fiscal vigente e a continuidade do “Desenrola Brasil” para limpar o nome de devedores. O argumento central é que o crescimento do PIB reduz a razão dívida/PIB naturalmente. Em entrevista recente, comparou os 80% brasileiros aos 120% dos EUA para relativizar o risco fiscal.

Ronaldo Caiado (PSD) condiciona a queda da Selic a uma “estabilização fiscal” via PEC no primeiro dia de governo. A proposta limita o crescimento das despesas federais à inflação mais 50% da variação do PIB. O foco é recuperar superávits primários com metas anuais claras.

Romeu Zema (Novo) propõe um “choque fiscal”: redução do IOF, corte gradual de subsídios do BNDES e modernização de garantias de crédito via Open Finance. A aposta é que a concorrência bancária force a queda dos juros ao consumidor final.

O time do “tesouraço” e da engenharia institucional

Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão) centram força no corte estrutural de despesas como sinal imediato ao mercado.

  • Flávio Bolsonaro: Promete “tesouraço” na burocracia e revisão da reforma tributária para desonerar exportações e investimentos. Garante que a simples posse de sua equipe faria a Selic cair na reunião seguinte do Copom. Propõe o “Empréstimo Contingente à Renda” para estudantes.
  • Renan Santos: Apresenta a “PEC do Equilíbrio Fiscal” com corte de R$ 212 bi/ano (R$ 1,1 tri até 2031). Quer desindexar benefícios, desvincular pisos de saúde/educação e criar moeda sul-americana lastreada no real.

Ambos miram a expectativa de inflação: se o mercado acredita no ajuste, os juros longos caem antes mesmo da Selic mover.

Crédito direto, regulação de apostas e propostas heterodoxas

Augusto Cury (Avante) foca na ponta do crédito. Propõe o “Banco do Empreendedor” com juros fixos de 5% a 6% ao ano para linhas de até R$ 20 mil, além de indexar dívidas do agro exportador ao dólar. Defende taxar bets em 40% e digitalizar a máquina pública com IA para economizar.

Já a regulação das apostas online aparece como denominador comum no combate ao superendividamento — Lula, Flávio, Caiado e Hertz Dias (PSTU) tratam o tema como prioridade de saúde pública ou proteção de renda de programas sociais.

A ala da ruptura: auditoria, estatização e anistia

Quatro candidatos propõem romper o modelo atual de política monetária e gestão da dívida:

  • Samara Martins (UP) e Hertz Dias (PSTU): Suspensão imediata do serviço da dívida, auditoria, estatização do sistema financeiro e destinação de recursos (R$ 2 tri no caso da UP) para áreas sociais. O PSTU propõe expropriar capital das bets para fundo de saúde.
  • Edmilson Costa (PCB): Reestruturação da dívida por títulos longos, fim da autonomia do BC, revogação do arcabouço e da LRF. Cria “Banco dos Trabalhadores” para gerir fundos previdenciários.
  • Rui Costa Pimenta (PCO): Vai além: anulação de todas as dívidas dos trabalhadores, cancelamento das dívidas interna/estatuária, fim de impostos sobre consumo/salários e escala móvel de salários indexada à inflação.

Clariana Barão (DC) e Wilson Grassi (Democrata) focam em gestão e crédito habitacional, respectivamente, sem detalhar âncoras para a Selic. Leonardo Avalanche (PRTB) propõe imposto único de 3,5% e linhas específicas para agro e motoristas de app.

O que observar daqui para frente

O cenário real dependerá de duas variáveis: a composição do Congresso (que aprova PECs e arcabouço) e a reação do Copom às sinais fiscais dos primeiros 100 dias. Para o tomador de decisão, o roteiro prático é monitorar: 1) a tramitação de eventuais PECs de corte de gasto; 2) a evolução da razão dívida/PIB nas projeções do Boletim Focus; 3) a inadimplência das famílias no próximo relatório do BC. Quem antecipar a convergência entre discurso de campanha e viabilidade legislativa ganha janela para alongar dívidas ou reposicionar carteiras antes do ciclo de corte efetivo.