Duas startups nascidas em sala de aula estão prestes a deixar o laboratório para operar em lavouras e aviários comerciais. O código funciona, os protótipos resistem a testes de campo, mas o verdadeiro teste de fogo começou agora: vender.
Estudantes de Engenharia de Software do Centro Universitário FAG deixaram de lado a nota do trabalho de conclusão de curso para assumir CNPJ, folha de pagamento e a pressão de entregar resultado para o produtor rural.
O problema real que virou produto
Rafael Bortoli cresceu vendo os pais, produtores rurais, paralisarem a produção hidropônica por falhas no controle do fluxo de água. A dor de casa virou tema de TCC e, depois, o núcleo da Folhastech.
Ao lado de Flávio Zanoni e Lucas Gheno, ele criou um sistema de monitoramento automático do complexo hídrico. A vitória no Summit da instituição, na categoria “Soluções inovadoras para problemas reais”, foi o sinal verde: aquilo não era mais exercício acadêmico.
A armadilha da perfeição técnica
O maior obstáculo não é programar sensores, mas garantir que uma falha não condene a safra do mês inteiro. “Fazer uma solução que não pode ser meia-boca, porque a produção do mês inteiro depende do seu produto, é o que mais está levando tempo”, admite Flávio.
A equipe, puramente técnica, descobriu na prática que engenharia não vende sozinha. O desenvolvimento da habilidade comercial tornou-se prioridade tão urgente quanto o firmware.
- Validação final: Em novembro, o último protótipo antes da venda foi instalado na Fazenda Escola.
- Gargalo: Custo de prototipagem e curva de aprendizado em vendas B2B.
- Próximo marco: Resultado dos testes de campo para liberação comercial.
Robô que “varre” o aviário sozinho
Enquanto a Folhastech cuida da água, a GreenPulse ataca a mão de obra escassa nos aviários. O time — Pedro Madalosso, Matheus Weiber, Flavio Emanuel Leite Pinto e Rafaela Boldrini Lopes — construiu um robô autônomo para revolver a maravalha, a cama das aves.
O princípio lembra um aspirador robô doméstico: mapeia o ambiente, desvia de obstáculos e executa a rota sozinho. O projeto garantiu o terceiro lugar no Inovathon Agro 2024 e, em outubro de 2025, a equipe expôs na AveSui, maior feira do setor na América Latina, caçando investidores para escalar.
O ecossistema que ensina a empreender
Nos dois casos, o Start FAG — núcleo de empreendedorismo da universidade — fez a ponte entre a bancada e o mercado. A professora Luma Carletto resume o papel da instituição: “Somos um habitat que tenta manter acesa a chama da inovação com incentivo e promoção de eventos”.
Foi lá que os alunos aprenderam que adaptar o discurso para o investidor é tão crítico quanto otimizar o algoritmo. A transição de “aluno que entrega trabalho” para “fundador que negocia contrato” é o currículo real que a faculdade não ensina na grade oficial.
O que observar daqui para frente
Os caminhos se separam no curto prazo: a Folhastech aguarda o veredito dos testes na Fazenda Escola para abrir as vendas; a GreenPulse precisa converter contatos da AveSui em capital para finalizar o hardware.
Para o mercado, o recado é claro: a próxima geração de agrotechs não vem de grandes corporações, mas de quem sentiu o problema na pele — ou na horta dos pais. Acompanhar a validação desses pilotos nos próximos trimestres dirá se a academia brasileira enfim aprendeu a exportar tecnologia para o campo.
