Pesquisadores de Mato Grosso levaram para a Alemanha estudos que conectam agrotóxicos a doenças neurodegenerativas e testam a cafeína como possível escudo cerebral. O trabalho coloca a ciência brasileira no centro de um debate global sobre saúde pública e agricultura. O que eles descobriram pode mudar protocolos de prevenção nos próximos anos.
Entre 7 e 11 de setembro, a 21ª Conferência Europeia de Neurobiologia de Drosophila (NeuroFly 2026) reuniu especialistas na Universidade de Colônia. Quatro representantes do Laboratório de Metabolismo Mitocondrial e Neurotoxicologia da UFMT apresentaram dados inéditos usando a mosca-da-fruta como modelo biológico.
Três frentes, um inimigo comum: o estresse oxidativo
As pesquisas miram mecanismos celulares que, quando falham, abrem caminho para Parkinson e epilepsia. O fio condutor é o estresse oxidativo — desequilíbrio que danifica neurônios e acelera a morte celular. A mosca Drosophila melanogaster compartilha 75% dos genes relacionados a doenças humanas, o que valida os achados como prenúncio do que ocorre em pessoas.
- Maria Elisa Fonseca (mestranda em Ciências da Saúde): testou cafeína contra modelo de Parkinson induzido por rotenona, inseticida de uso agrícola. O composto reduziu marcadores de neuroinflamação nas regiões cefálica e torácica dos insetos.
- Brenda Daiany Neves (mestranda em Química): mapeou alterações comportamentais e metabólicas causadas por exposição contínua ao Diquat, herbicida amplamente empregado no Brasil. O trabalho quantifica danos ao sistema nervoso em doses ambientalmente relevantes.
- Enzo Vinnicius Santana (iniciação científica): aplicou protocolo de exercício físico (método TreadWheel) para modular crises epilépticas e avaliar sobrevivência metabólica. A atividade motora mostrou-se intervenção complementar promissora.
Da bancada ao avião: como a ciência de base cruzou o Atlântico
Os três estudantes conquistaram o Travel Fellowship da organização — bolsa competitiva que cobre taxas de inscrição, concedida apenas a trabalhos de destaque. Passagens e hospedagem vieram de editais da PROPG, PROPESQ e PROEG, somados a rifas e crowdfunding nas redes sociais. A mobilização revela um detalhe frequente: ciência de ponta no Brasil ainda depende de criatividade para vencer barreiras logísticas.
Para o professor Anderson Oliveira, coordenador do laboratório, o retorno vai além de certificados. “Ver os alunos respondendo a pesquisadores estrangeiros e caminhando com as próprias pernas é o indicador real de maturidade científica”, afirma. A autonomia demonstrada em Colônia sinaliza que a linha de pesquisa em Drosophila na UFMT ganhou fôlego próprio.
O que a conferência mudou na cabeça de quem foi
Maria Elisa resume: “Voltamos cheios de ideias que não tínhamos antes”. Brenda classifica a experiência como “surreal” e destaca o acesso a metodologias inéditas na neurociência. Enzo enfatiza a responsabilidade de representar a ciência brasileira num palco global. O denominador comum: exposição a pares internacionais reconfigura perguntas de pesquisa e acelera a curva de aprendizado.
Essa dinâmica — trocar hipóteses com quem está na fronteira do conhecimento — é o ativo mais valioso de eventos como o NeuroFly. Publicações saem depois; a transformação mental acontece nos corredores, nos cafés, nas discussões informais que não entram no programa oficial.
Próximo capítulo: Portugal 2028 e a busca por perenidade
O laboratório já iniciou o planejamento para a edição de 2028, sediada em Portugal. A meta declarada: levar mais resultados consolidados e fechar parcerias que garantam financiamento contínuo. O pró-reitor de Pesquisa da UFMT, Bruno Araújo, reforça que a universidade mantém editais permanentes de apoio à participação em eventos nacionais e internacionais — para discentes, docentes e técnicos.
O recado prático para quem acompanha ciência e inovação: grupos que internacionalizam cedo tendem a captar mais recursos, atrair talentos e publicar em periódicos de alto impacto. A presença no NeuroFly não é episódio isolado; é movimento estratégico de posicionamento.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o alcance real dessas pesquisas: (1) publicação dos dados em periódicos indexados nos próximos 12 a 18 meses; (2) conversão de contatos feitos na Alemanha em projetos colaborativos com financiamento bilateral; (3) capacidade do laboratório de escalar os achados de Drosophila para modelos mamíferos ou estudos epidemiológicos em populações expostas a agrotóxicos no Centro-Oeste. A ciência fez a parte dela — agora, o ecossistema de inovação precisa fazer a dele.
