Pesquisadores da USP e da UFRR confirmaram concentrações de terras raras em Roraima que superam em até seis vezes a média global para depósitos de adsorção iônica. O achado coloca o Sul do estado no radar estratégico da mineração de alta tecnologia.
A descoberta não é apenas acadêmica. Os teores de 0,3% a 0,6% encontrados em argilas do Complexo Barreira, em Caracaraí, tornam a viabilidade econômica uma pergunta concreta — e não mais uma hipótese distante.
O evento que reuniu ciência e negócios em Boa Vista
Nesta quinta-feira (18), a Assembleia Legislativa de Roraima sediou o 1º Fórum de Elementos Terras Raras, Minerais Estratégicos e Críticos. A programação reuniu especialistas em geoquímica, nanotecnologia e prospecção mineral para debater o potencial da região e os gargalos tecnológicos da extração.
A abertura coube a Lucergio Barreira, proprietário e pesquisador do Complexo Barreira — área de mais de 120 mil hectares entre as serras do Baraúna e do Anauá, onde mais de 50 trincheiras já revelaram a presença dos 17 elementos em diferentes profundidades.
Por que a adsorção iônica muda o jogo
Diferente de depósitos em rocha dura, nos quais a extração exige britagem pesada e ácidos agressivos, os depósitos de adsorção iônica prendem os elementos às partículas de argila. Isso permite lixiviação in situ — injetando solução no solo e bombeando o líquido carregado de minerais — com impacto ambiental drasticamente menor.
O professor Henrique Eisi Toma, da USP, apresentou a palestra “A nanotecnologia das terras raras” e detalhou o trabalho com cerca de 100 amostras coletadas desde janeiro de 2026. O objetivo: identificar quais elementos estão presentes, medir suas concentrações e, o mais crítico, desenvolver método de separação.
O gargalo da separação e a aposta em nanopartículas
Terras raras compartilham propriedades químicas quase idênticas. Separá-las individualmente é o maior obstáculo técnico e econômico da cadeia. A equipe da USP aposta em nanopartículas projetadas para “reconhecer” cada elemento e extraí-lo seletivamente — tecnologia que será testada após a etapa de caracterização química.
Se funcionar em escala, o método pode reduzir custos, resíduos e dependência de rotas de processamento dominadas hoje por poucos players globais.
Números que chamam a atenção do mercado
- Teores encontrados: 0,3% a 0,6% (média global em adsorção iônica: 0,01% a 0,3%)
- Ítrio (Y): 296 ppm detectados em estudos da UFRR em 2025
- Área amostrada: 120 mil hectares com 50+ trincheiras
- Profundidade confirmada: até 15 metros
- Amostras em análise na USP: ~100 amostras de argila
Da prospecção à jazida: o que falta caminhar
Apesar dos indicadores animadores, a pesquisa permanece em fase de prospecção. Confirmar uma jazida economicamente viável exige provar continuidade lateral e vertical dos teores, definir a mineralogia exata, estimar custos de extração e processamento, e atender a exigências ambientais e regulatórias — incluindo consulta a comunidades indígenas e tradicionais da região.
A mesa-redonda de encerramento do fórum, com oito doutores de diferentes especialidades, sinalizou que o próximo passo é integrar dados geológicos, geoquímicos e tecnológicos em um modelo 3D da ocorrência.
O que observar nos próximos meses
Três frentes ditam o ritmo daqui para frente: a conclusão das análises químicas das 100 amostras na USP, a validação em laboratório da separação por nanopartículas, e o avanço do licenciamento para campanhas de sondagem mais profundas e sistemáticas. Investidores e formuladores de política mineral devem monitorar os relatórios técnicos da UFRR e USP — e eventuais pedidos de pesquisa ou lavra junto à ANM — como termômetros reais da transição de “ocorrência promissora” para “projeto de mina”.
